Uma mulher fiel, duas paixões, uma escolha

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O trecho abaixo foi retirado com permissão do livro Mulheres Fiéis e seu Deus Maravilhoso, de Nöel Piper, Editora Fiel.

Em 1876, quando Lilias tinha vinte e três anos, viajou pela Europa com sua mãe e sua irmã. Ao avistar os Alpes suíços, “ficou tão deslumbrada pela beleza majestosa dos Alpes que irrompeu em lágrimas”. Aquela viagem encheu seus olhos e sua alma sensíveis com cor e luz que sua mão habilidosa e seu pincel expressaram sobre a tela.

Duas significativas amizades iniciaram-se durante esta viagem. Primeiro, numa convenção na Suíça, ela conheceu Blanche Haworth, que se tornou uma amiga íntima e, em uma década, se tornaria sua colega de missões e amiga mais próxima.

Em Veneza, a senhora Trotter descobriu que John Ruskin estava hospedado no mesmo hotel. Ruskin era um “artista, crítico, filósofo e uma figura proeminente na Inglaterra Vitoriana”. Ele era a voz da arte no mundo da sua época. Se ele dissesse que determinada coisa era boa, aquilo era realmente bom. A senhora Trotter enviou-lhe um pacote com pinturas em guache de sua filha Lilias, juntamente com uma nota: “A senhora Alex Trotter tem o prazer de enviar ao Professor Ruskin as pinturas em guache de sua filha. A senhora Trotter está preparada para ouvir que ele não as aprova – ela começou a desenhar na infância e recebeu pouco ensino. No entanto, se a senhora Trotter puder ter a opinião do senhor Ruskin isso seria valioso”.

Apesar do fato que Lilias era tão facilmente levada às lágrimas pela beleza e tivesse amado pintar, era verdade que não havia recebido nenhum treinamento formal. Sua habilidade era um dom. Sua irmã lembrava com irônica admiração: “Em desenho ela felizmente fez um breve curso em paisagismo – interno – do qual nenhum benefício conseguiu derivar”.

Ruskin descreveu os quadros que recebeu como “uma obra meticulosa e extremamente correta”. Apesar de que as palavras tenham parecido equilibradas, a sua reação refletiu mais entusiasmo. Ele mostrou aos Trotters os tesouros da arte de Veneza, deu tarefas a Lilias, e convidou-a para ser sua aluna, quando ela retornasse à Inglaterra. Ele a tomou sob seus cuidados, foi seu tutor e visualizou de antemão um grande futuro como uma artista de nível mundial. Ela e sua irmã visitaram Ruskin com frequência em sua casa, em Lake District, onde ele auxiliava Lilias a aprimorar sua habilidade. Estas semanas imersas em cor, forma e beleza ofereceram rejuvenescimento ao espírito desta jovem mulher que gastava o resto de seu tempo nos distritos mais sombrios de Londres.

Contudo, quando Lilias tinha vinte e seis anos, Ruskin ficou frustrado com ela por deixar-se distrair de sua arte. Ele não aprovou o modo como Lilias dividia o tempo, durante a semana. Ela gastava muito tempo nas ruas de Londres e não dedicava tempo suficiente à pintura. Então, Ruskin demonstrou-lhe a glória da vida da arte que estava diante dela. Se ela se dedicasse à arte, ele disse, “seria a maior pintora da época e faria obras imortais”.

Esta foi uma decisão angustiante. Paralelamente em sua vida existiam duas atividades totalmente apaixonantes – arte e ministério. Ela sabia que era impossível doar-se totalmente a estas duas paixões. Não é possível servir totalmente a dois diferentes senhores. Mas, Lilias entendeu que é possível uma das paixões tornar-se serva da outra. E, assim, ela teve de decidir qual paixão tornar-se-ia mestra da outra.

Por muitos dias, Lilias ponderou seus desejos e orou a Deus para que tornasse claro o seu chamado. Sua amiga Blanche Pigott escreveu: “Ela me disse que sentia como se aqueles dias fossem muitos anos”.

Ao escrever para mim… ela diz: “Você entenderá que não é por vaidade que lhe conto os elogios de Ruskin à minha obra. Acho que não é por vaidade, pois não tenho autoridade sobre o meu dom, assim como não a tenho sobre a cor do meu cabelo. Eu lhe contei porque preciso de oração para descobrir com clareza a vontade de Deus”. O deleite intenso que ela sentia… diante da perspectiva de uma vida devotada à arte e envolvida pela arte somente fez com que buscasse mais intensamente ser guiada pela vontade única de Deus.

Ela amava a sua arte e sabia ser possível que Deus usasse sua influência naquela área para os propósitos do seu Reino. Mas, finalmente, ela disse: “Agora, vejo, tão claro como o dia, que não posso dedicar-me à pintura do modo como ele [Ruskin] pretende e, ainda, continuar a buscar ‘em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça’”.

Agora ela estava livre para entregar-se de todo coração ao ministério em Londres. Ela continuou amiga de Ruskin até o fim da vida dele, apesar do fato que ele nunca entendeu sua decisão. Ela ainda amava a arte – e como poderia não amar, visto que sua alma era tão ternamente vulnerável à beleza? Mas, agora, admirava sua arte como um dom e não como uma paixão. Muito tempo mais tarde, ela compreendeu ainda mais profundamente a importância de focalizar-se em Jesus, em vez de focalizar-se em todas as boas coisas que Ele nos dá.

Nunca foi tão fácil viver em diversos mundos inofensivos ao mesmo tempo – arte, música, ciência social, jogos, dirigir, seguir alguma profissão, e assim por diante. E, entre estas atividades, correr o risco de o “bom” ocultar o “melhor”…

É fácil descobrir se nossas vidas estão focalizadas e, neste caso, no que estão focalizadas. Em que se concentram nossos pensamentos, quando nossa consciência volta pela manhã? Onde eles oscilam quando a pressão é aliviada ao longo do dia?… Tenha coragem para perguntar isso a Deus… e peça-Lhe que lhe mostre se tudo está ou não focalizado em Cristo e em sua glória…

Como trazemos as coisas a um foco no mundo da ótica? Não olhando para aquilo que precisamos deixar, mas olhando àquele ponto que precisa ser focalizado. Direcione a visão de sua alma para Jesus, e olhe insistentemente para Ele; então, uma estranha obscuridade virá sobre tudo o que está à parte dEle.

Ministério e Vida Pastoral

Por mais de dez anos, Lilias trabalhou junto ao Welbeck Street Institute, dando continuidade ao trabalho quando o instituto se uniu a algumas outras organizações para formar a primeira Young Women’s Christian Association (YWCA Associação Cristã de Mulheres Jovens). Os alvos de Welbeck harmonizavam-se bem com o objetivo do novo YWCA para “unir jovens mulheres em oração e evangelismo, promover a amizade cristã e o auxílio mútuo, e promover o bem-estar social, cultural e moral de seus membros”.

Para Lilias, o ministério significava ajudar a criar e administrar lugares e programas para moças pobres trabalhadoras, a fim de que estas tivessem refeições e um lugar para dormir. Isto significava dar aulas de estudo bíblico para mulheres e crianças. Ela estava envolvida em trabalho de resgate, ou seja, estar presente onde mulheres precisassem de ajuda para saírem de más situações; talvez “sentar-se à noite inteira com uma menina pobre e desequilibrada, para impedi-la de cometer suicídio”, ou, talvez, sair pelas ruas para oferecer às prostitutas um lugar seguro.

Para muitas moças que viviam abandonadas na cidade, sem habilidades ou meios de emprego, [prostituição] era um trágico recurso… Lilias atravessava destemidamente as ruas, com a finalidade de resgatar estas andarilhas… Ela as trazia ao albergue para que tivessem uma boa noite de sono e para treiná-las em alguma habilidade que lhes desse algum emprego, e as apresentava ao Bom Pastor.

As escolhas do ministério de Lilias tinham implicações diretas em sua vida pessoal. A Inglaterra Vitoriana possuía um senso de classe bastante definido. Ao escolher trabalhar entre aquelas pessoas que eram consideradas as mais desprezíveis da sociedade, ela estava se excluindo do círculo de amizades da sociedade da moda. Em primeiro lugar, as damas distintas não “trabalhavam”. E, certamente, não andavam sozinhas ou frequentavam aquelas partes da cidade. As mães, no nível de sociedade em que Lilias nasceu, não desejariam para seus filhos uma mulher que se comportasse de modo tão impróprio. Com efeito, Lilias havia escolhido permanecer solteira.

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