Um profeta improvável

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Como iremos contar para as futuras gerações a história sobre o Coronavírus?

Em 2020, o famoso professor israelense e best-seller Yuval Harari viu sua profecia escrita em “Homo Deus: uma breve história do amanhã” (2018) sendo seriamente desafiada pela deflagração da pandemia de Coronavírus. Yuval havia dito: “Tendo conquistado nossos três antigos inimigos [a fome, a praga e a guerra], os seres humanos estão livres para perseguir o projeto de se tornar como Deus”. Eis uma coisa que a humanidade não foi em tempos de Covid-19: livre.

Em todos os continentes empilhavam-se os mortos. Em alguns locais, como na Itália, a crise era seríssima, com taxas de mortalidade elevadas nos chamados grupos de risco. A ansiedade se espalhava em todo o mundo, o pânico era crescente e, ainda que algumas poucas vozes afirmassem haver histeria, o consenso era de que a pandemia era grave. Dia após dia a sociedade globalizada via ruir muitos de seus valores. Estaria o mundo como conhecíamos ameaçado? Apenas o tempo diria, é verdade, mas vários indícios estavam presentes.

Naquela época, a humanidade habitava num contexto de avanço da prosperidade em todas as áreas. Não havia dúvidas de que, apesar de ainda existirem muitas questões sociais a serem tratadas, vivia-se melhor do que as gerações anteriores. Uma sociedade tecnológica, hiperconectada, sustentável e globalizada. A preocupação com a saúde, a ênfase numa alimentação saudável e em atividades físicas nunca estiveram tão em alta. As academias proliferavam-se no Brasil, mesmo em meio a uma crise econômica que já durava alguns anos. O homem estava no controle de si mesmo e, cada dia mais, no controle do mundo natural. Ou, pelo menos, muitos assim pensavam. 

A pandemia veio para desafiar várias das crenças essenciais vigentes no imaginário coletivo. Muitas perguntas surgiram com ela. 

Qual o nível real de domínio que temos sobre a nossa saúde? Ora, um pequeno vírus foi capaz de fazer com que hospitais ficassem lotados e médicos precisassem decidir – inclusive em nações ricas – sobre quem tratar e quem não tratar. Academias foram fechadas e a preocupação com a alimentação era menos sobre comer o que era saudável e mais sobre se teríamos o que comer.

Até que ponto estarmos tão conectados presencialmente, com tantas possibilidades de irmos de um lugar para o outro – e com tanta dificuldade de fecharmos as fronteiras – foi responsável pela rápida propagação do vírus? A globalização foi bênção ou maldição? “O meu quintal é o mundo” demonstrou várias fragilidades.

E o ideal de controle? Quantas viagens, festas, reuniões, grandes eventos, foram cancelados? Até mesmo as Olimpíadas seriam adiadas, a NBA suspensa, os estádios de futebol esvaziados… Nações e mais nações que haviam se esquecido das palavras de Tiago estavam agora experimentando o amargo sabor de estarem sujeitas – em suas turvas visões – ao azar, à fortuna. O que antes era loucura, agora fazia bastante sentido:

“Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros. Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo.” (Tg 4.13-15)

“Isolemos, portanto, a todos, para podermos controlar o vírus!” A tecnologia ajudou a minimizar o isolamento em tempos de coronavírus, mas, ao mesmo tempo, deixou claro que o contato presencial é insubstituível. O mito das redes sociais foi destruído. Viram cair a falácia de que estamos mais próximos por estarmos tecnologicamente mais conectados. Conexão real é conexão presencial.

“Temos dinheiro para fazermos mais respiradores!” Existia limite para a produção e precisávamos de mais tempo do que a doença nos dava. “Temos laboratórios para produzir vacina, cura, tratamento!” Mas isso requereria tempo, protocolos, pesquisa, por mais que houvessem muitas pessoas envolvidas, de inúmeros países. Poucas vezes se viu como a ciência pode ser uma bênção, mas também como ela tem severas limitações naturais.

Quando a solução – não perfeita, mas a melhor para a realidade – parecia ter sido encontrada, o isolamento de todas as pessoas, um outro problema surgiu no horizonte, uma provável recessão com sérios impactos econômicos e sociais. “Quem nos salvará desse infortúnio?” A maioria bradava: “o Estado”. Mas será que seria ele capaz? Em países ricos e pobres? E a caridade privada, existiria? Homens e mulheres serviriam uns aos outros com seus bens? A poupança de muitos havia sido queimada no altar do consumismo e o risco de recessão econômica severa colocava em xeque toda a crença no ideal de progresso.

A verdade, nisso tudo, é que havíamos esquecido nossa natureza: vulneráveis, fracos, frágeis, limitados, mortais. O coronavírus foi um grande aviso para a humanidade sobre como ela, diferente do que Yuval profetizou, não era como Deus e não poderia ser como Deus. A tentação de Yuval não era nova, mas a mesma de Adão e Eva. O mundo, em 2020, não só havia comido o fruto proibido, mas fazia nele seu banquete. O coronavírus demonstrou a podridão do fruto. Ao comermos dele, havíamos morrido, não havia respiradores para nós. 

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Sem dúvidas, como tentei fazer brevemente acima, uma das formas possíveis de contar a história que temos vivido é enfatizando sobre como essa pandemia é um chamado ao arrependimento para nossa cultura. Ela é como um profeta, ela é como Jonas, que bradava: “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida” (Jn 3.4). Não sabemos, ainda, se a resposta do mundo será contrição, pano de saco e cinzas ou se, como Faraó, ao sofrer as dez pragas, o coração desse mundo será ainda mais endurecido.

Entretanto, tenho percebido que esse vírus é, para nós, os cristãos, como Natã foi para Davi (em 2Sm 12.1-25). Ele começa contando uma história sobre o mundo sem Deus, mas depois nos mostra, de fato, como temos vivido diariamente como se não houvesse Deus no mundo. “Tu és o homem” (v. 7), disse Natã para Davi. “Você tem sido como o mundo”, nos revela o coronavírus.

Você tem confiado a sua saúde nas mãos de quem? Devemos sim tomar precauções, agir com sabedoria, comer bem, fazer atividades físicas. Entretanto, para você, quem é o Senhor sobre a vida e a morte? E sobre a sua vida e sua morte? E, mais ainda, sobre a vida e morte da sua família e daqueles que ama?

Você tem sido um cidadão do mundo mais que um cidadão na sua cidade, em sua igreja local, em sua família? O mundo real ao seu redor tem sido mais importante que o mundo virtual no qual tem habitado? Suas finanças têm sido usadas para servir ao próximo ou só a si mesmo?

Quando você faz seus planos, leva em conta o ensinamento de Tiago? Faz as coisas sempre lembrando que há um Deus que governa sobre tudo e todos? É o cuidado de Deus ou os cuidados das suas mãos que asseguram a sua prosperidade? Você tem confiado mais em quem? Em Deus? Ou sua esperança está na ciência, no Estado ou em suas riquezas? Por que, então, tem andado ansioso?

O chamado ao arrependimento da cultura, portanto, é um chamado também ao nosso arrependimento. É hora de admitirmos: “Pequei contra o Senhor”. É hora de nos ajoelharmos diante do nosso Pai, percebermos nossas faltas e buscarmos viver piedosamente, com fé, esperança e amor. Especialmente, penso que seja um momento oportuno para admitirmos que, na verdade, não temos crido que Deus está no controle, mas aceitado o tolo ideal mundano de que não há um Deus sobre nós. Pano de saco, cinzas e lágrimas! Talvez, assim, nos lembremos que Deus é misericordioso conosco.

“Então, disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; caia eu, pois, nas mãos do SENHOR, porque são muitíssimas as suas misericórdias, mas nas mãos dos homens não caia eu.” (1Cr 21.13)

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