Salmo 46: Deus, o nosso abrigo na tempestade

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No íntimo de cada ser humano, há um anseio, um anelo por segurança. Fomos criados para o paraíso, não para sermos afligidos por vírus, bactérias e outras doenças que causam a morte. Mas, quer gostemos, quer não, os fatos são coisas obstinadas; o jogo está em andamento, a caçada está aberta, e as chances não estão a nosso favor. Apesar de todos os avanços nos cuidados de saúde e em tecnologia de medicina, a taxa de mortalidade continuar admiravelmente consistente ao redor do mundo: uma morte para cada pessoa.

Para uma alma eterna, muito apegada à vida, essa é uma estatística alarmante, que gostamos de ignorar. “Amanhã”, pensamos em nosso coração, “eu posso morrer amanhã, mas provavelmente não hoje. Em qualquer caso, meus piores temores raramente se tornam verdadeiros. As coisas são geralmente muito melhores do que parecem. E, além disso, estou relativamente novo e em boa forma. Portanto, eu provavelmente ficarei bem.” À semelhança de um amigo da onça, esse tipo de pensamento ajuda somente até quando a situação muda. Quando a música acaba e perdemos realmente o chão, o que devemos fazer?

Na Bíblia, Deus nos deu muitas canções para cantarmos em momentos como esse. Nenhuma delas é tão rica quanto aquele antigo hino de fé inabalável, o Salmo 46. Através dos séculos, estas palavras têm sido um lugar de descanso para almas perturbadas de todos os lados pela morte, demônios e trevas. Em um mundo dominado pela Covid-19, este salmo é um travesseiro sobre o qual a nossa alma pode descansar em meio à tempestade.

O salmo retrata um tempo de caos inimaginável. Os montes, aqueles marcos permanentes que já existiam antes mesmo de nascermos e existirão muito tempo depois que tivermos morrido — sim, esses montes estão caindo no seio dos mares (Sl 46.2-3). Imagine a grande confusão: o mundo está em queda livre. Em todos os dias de trevas da história humana, a experiência humana não se torna pior do que isso. Em tempos assim, no passado e no presente, a pergunta que todos fazem é esta: “O que devemos fazer?”

Não fique carregado de Temor

“Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem-presente nas tribulações. Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares” (Sl 46.1-2).

A confiança do salmista está arraigada em sua teologia. Na ordem hebraica das palavras, as duas primeiras palavras contêm o segredo: “Deus é para nós um refúgio”. Deus é por nós e não contra nós. Absorva este pensamento. Cristão, Deus está do seu lado. O ser de Deus é por você, bem como sua sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade. Em sua plenitude, Deus está engajado ao lado do cristão, para o benefício dele. Neste respeito, o salmista identifica três aspectos específicos da relação de Deus com seu povo:

  1. Deus é por nós como Aquele para quem podemos correr quando estamos em perigo (refúgio).
  2. Deus é por nós como Aquele que é forte quando somos fracos (força).
  3. Deus é por nós porque está perto quando precisamos de ajuda — literalmente, “um socorro em situações difíceis, bastante acessível” (Sl 46.1).

Seja o que for que a Covid-19 lhe traga, você não o enfrentará sozinho. Deus estará como você. Quanto mais perto o perigo, tanto mais perto o Pastor. Aquele que morreu por você, em favor de seus pecados, nunca o abandonará. “Eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20).

Não seja dominado por tristeza

Na segunda estrofe, o salmista nos leva ao monte Sião. Imagine a cena ali. Lembre-se do que está acontecendo com os montes. Talvez você esperasse achar pânico: os fundamentos se abalam, muralhas caem, pessoas correm em todas as direções, e mães juntam seus pequeninos a fim de correrem para longe. Mas a atmosfera na cidade santa não é de pânico. É de paz e alegria. “Há um rio, cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo. Deus está no meio dela; jamais será abalada; Deus a ajudará desde antemanhã” (Sl 46.4-5).

Em Cristo, Deus compartilha de nossa natureza e conhece a nossa estrutura.

Este rio é a presença doadora de vida do Deus vivo (Sl 46.4-5). Os santos em Sião, você percebe, são uma linhagem estranha. Eles podem conhecer e conhecerão alegria até em meio à pior catástrofe. Não porque são desumanos ou, em alguma medida, insensíveis à dor. Na verdade, eles são feitos do mesmo material de que é feito o restante da humanidade, mas a sua capacidade de ficarem calmos e focalizados resulta do seu relacionamento inquebrável com Deus. A presença de Deus os mantém seguros, venha o que vier. Independentemente do que aconteça, Deus está ali. Ele não pode ser separado destes crentes do Antigo Testamento, nem de nós. Até mesmo no tempo mais tardio e mais escuro da noite (poucos antes do alvorecer), quando somos mais vulneráveis ao ataque do inimigo, Deus virá ajudar-nos (Sl 46.5). Até quando as nações bramam contra seu povo, Deus precisa apenas falar uma palavra, e a terra se dissolve (Sl 46.6). As nações não têm mais nem uma polegada de terra sobre a qual possam firmar os pés.

O que mais? A presença de Deus está disponível para qualquer pessoa e todos que entendem o seu valor. Você entende isso? Deus não se reserva para os soberbos, nem para os presunçosos, nem para os poderosos. Ele está disponível para os Jacós deste mundo (Sl 46.7), aqueles que são inerentemente instáveis, difíceis, gananciosos, egoístas, afoitos, distraídos e enganadores. Se um Deus como esse teve compaixão de pessoas como Jacó (antes de ele se tornar conhecido como Israel), podemos ter certeza de que ele condescenderá em ajudar você e eu. “Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros” (Tg 4.8).

Não ignore o que está realmente acontecendo

Quando os tempos são difíceis, e a pressão continua, tendemos a desenvolver uma visão de túnel e perdemos a perspectiva. O sofrimento parece pessoal e tem uma maneira de interiorizar todos os nossos pensamentos, de tal modo que a autocompaixão se torna a língua materna da agonia. Deus sabe disso e, portanto, chama seu povo afligido a erguer os olhos e contemplar “as obras do Senhor” (Sl 46.8). Deus quer que vejamos o que ele está fazendo por trás das cenas da história: está abatendo a rebelião orgulhosa das nações contra ele (Sl 46.9; cf. Sl 2); está exaltando seu nome na terra (Sl 46.10) e guardando seu povo em segurança em meio a tudo isso (Sl 46.11).

Séculos de arte cristã têm nos enganado quanto ao entendimento do que significa a ordem “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus” (Sl 46.10). Lemos essas palavras e pensamos em Natal cheio de neve em Vermont. Um quadro melhor poderia ser o de várias crianças brigando no banco de trás de um carro. Razão, bondade e amor saíram, todos, pela janela. Tudo no que as crianças conseguem pensar é em sua própria disputa de território e no que podem perder. Em algum momento, o pai vira para trás e grita bondosa mas firmemente: “Fiquem quietos!” Esse é o verbo que o salmista emprega aqui. Deus está repreendendo seu povo por não ver o quadro maior. Não é isso o que geralmente acontece em tempos de desastre, quer seja uma criança doente, um resultado médico “anormal”, mercados em colapso ou a sombra ameaçadora da Covid-19? Quão fácil é perdermos a perspectiva, ignorarmos o quadro maior e não percebermos que Deus está realmente agindo.

Em meu tempo como pediatra no Hospital Real de Belfast para Crianças Doentes, conheci muitos pais que viam somente a crise de uma criança doente. É a reação natural de todos nós. Entretanto, muito frequentemente, Deus trazia um de seus gigantes espirituais à ala de pediatria. Era geralmente um pai de uma criança que tinha alguma enfermidade crônica e debilitante como fibrose cística — um pai, uma pessoa bem treinada na escola do desapontamento e com o tipo de discernimento espiritual que nunca se ganha por seguir o caminho de menos resistência. Estes irmãos queridos viam a crise e sentiam a dor desconcertante tão intensamente quanto os demais. Mas eram diferentes nisto: tinham fé para alcançarem além daquela dor e apropriarem-se de uma realidade melhor, mais rica e mais verdadeira. Durante a crise, pela fé viam a oportunidade de Deus revelar sua glória, seu filho crescer em graça e eles mesmos testemunharem do Salvador.

Nestas semanas, quando experimentamos a nossa porção de “tribulações” (Sl 46.1), oro para que o Doador de toda boa dádiva e todo dom perfeito nos dê toda a graça para sermos corajosos e alegres e nos dê também a fé que percebe o fio dourado da história se enrolando inexoravelmente em direção à glória. Como o apóstolo João nos lembra repetidas vezes em Apocalipse, há um “trono” no céu (Ap 4.2). Em algum lugar, de alguma maneira, Alguém está no controle. Em Cristo, Deus compartilha de nossa natureza e conhece a nossa estrutura (Sl 103.14). E não se envergonha de chamar-nos irmãos (Hb 2.11). O menino de Maria entende nossa fraqueza a partir do interior, e nossa dor toca os nervos de seu coração (Hb 4.15). Como Pantokrator (Aquele que sustenta todas as coisas), Jesus reúne todas as peças de nossa vida em sua mão e as rege para sua glória. Cristão, descanse sua cabeça neste travesseiro, e você achará paz para a sua alma e abrigo em meio à tempestade.

Devocional original: Voltemos ao Evangelho.

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