Sacudindo o balaio

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Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal. (Mt 6.34)

Houve uma época, em minha vida, que trabalhei em uma fazenda de café como anotador de colheita. Meu trabalho consistia em fazer a medição do café colhido por cada apanhador, pois o pagamento era feito de acordo com a produção de cada um.

A medição era feita em grandes balaios (cestos feitos de bambu) com capacidade para aproximadamente 50 litros.

Para que a medida sempre fosse exata, após despejar o café no balaio até enchê-lo dava-se uma leve sacudida nele, e então, os grãos de café se acomodavam e era possível colocar mais um pouco de café no balaio.

Os trabalhadores não gostavam muito disso, mas era a regra, era o combinado antes da colheita.

Nesses últimos dias comecei a pensar no nosso estilo de vida moderno e, não sei por que me veio à mente a recordação do balaio, gastei então, um tempo meditando no que, para mim seria uma parábola do Balaio de Café.

Na sociedade moderna temos muitas coisas para fazer, a correria, o stress, a falta de tempo, as poucas horas de sono o pouco tempo com os filhos, com o marido ou com a esposa. A falta de uma boa conversa sobre amenidades durante algumas horas com pessoas que amamos ou um jantar sem hora para acabar.

Fomos deixando, ao longo dos anos, todas essas coisas boas de lado. Ficamos doentes, vamos ao médico e ele diz: “Você precisa desacelerar, precisa deixar de fazer algumas coisas”.

Mas parar como? Preciso garantir a educação dos meus filhos, preciso investir em minha carreira na empresa. Preciso isso, preciso aquilo. Não tem como parar.

Mas aí, de repente, uma pandemia toma conta do mundo, se aproxima de nossas vidas como uma nuvem negra encobrindo o céu.

Os órgãos de saúde recomendam o isolamento social, fábricas adotam férias coletivas, escolas suspendem as aulas, as lojas e restaurantes fecham e as Igrejas suspendem seus ajuntamentos.  Alguns de nós somos mandados para a casa com um notebook para trabalharmos em “home office”.

Então, agora, de um dia para o outro, somos obrigados a ficar em casa.

Não tem mais “parar como?”. Continuar na velha correria agora não é mais uma opção. Não temos escolha. Temos que parar, temos que ficar em casa.

Então nos levantamos de manhã e, como não podemos sair, esperamos as crianças acordarem, fazemos nosso culto doméstico, tomamos nosso café tranquilos, todos à mesa, sem pressa.

Depois, cada um vai cuidar de suas tarefas, vamos realizar nosso trabalho em home office, as crianças tiram um tempo para estudar, ligamos para nossos parentes, amigos e irmãos da Igreja para saber como eles estão.

Como dispensamos a empregada, dividimos as tarefas domésticas para organizar a casa.

O que aconteceu?

Aconteceu que, de repente, essa pandemia sacudiu nosso balaio, e então percebemos que, na realidade, havia em nossas vidas espaço para outras coisas.

Essa pandemia, sem dúvida, trouxe à humanidade um grande impacto negativo, é sim uma catástrofe, é sim, um desastre, as sequelas durarão muitos anos.

Mas é em meio as dificuldades que aprendemos, é na tribulação que crescemos mais solidamente.

Não queremos parar, e se não paramos, não conseguimos raciocinar, e se não raciocinamos não conseguimos perceber os desvios ao longo da rota.

E então um evento, do qual somente Deus tinha conhecimento, e sobre o qual ele tem total controle, impacta nossas vidas como nunca.

Aproveite esses tempos de “desaceleração” para meditar, para reconsiderar em oração se a vida que temos vivido é a vida que Deus planejou para nós.

Um dia essa crise vai passar, e a vida vai voltar ao normal. Quando esse tempo chegar, que possamos voltar às nossas atividades de forma diferente.

Que aprendamos a ponderar nossas atividades, colocando-as na ordem de grandeza correta, diante dos valores que devem orientar a vida dos crentes.

Que esses tempos nos ensinem a vivermos a vida em abundância.

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