O papel da lei na vida dos cristãos

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A palavra “lei” (νόμου) aparece doze vezes em nove versos na carta aos Gálatas (2.16, 19, 21; 3.2, 5, 10, 13, 18, 21). Fica evidente que essa é uma das ênfases de Paulo para às igrejas da Galácia. Ao estudarmos essa carta percebemos que havia uma divisão social e racial naquelas igrejas da Ásia Menor. Com o crescimento do cristianismo muitos gentios se converteram a Cristo e isso gerou uma tensão inevitável entre judeus e gentios. Todavia, alguns mestres estavam ensinando que esses novos na fé (gentios) deveriam observar as leis judaicas (alimentos, circuncisão etc.) para serem plenamente aceitos por Deus.

Esse ensinamento de mérito para salvação (obras próprias), recebeu um duro ataque do apóstolo Paulo, a ponto de ele dizer que isso era um “outro evangelho” (1.6, ἕτερον) – algo totalmente distinto, de outro tipo e qualidade. Paulo diz que mesmo se “um anjo” pregasse algo diferente do que ele estava pregando, deveria ser considerado “anátema” (1.7). O apóstolo estava “surpreso” (1.6) negativamente com esses irmãos pelo fato de serem tão influenciados por esse outro ensino. Eles estavam sendo “perturbados” (1.7) pelos falsos mestres. É exatamente isso que o falso ensino causa, perturbação. Seja no casamento, no trabalho, na vida devocional ou na igreja. O grande problema para Paulo era que abandonar o verdadeiro evangelho era na verdade o próprio Deus: “[…] vocês estão passando tão depressa daquele que os chamou na graça de Cristo para outro evangelho” (1.6, ênfase do autor). Essa era a razão da severa abordagem de apóstolo.

Enquanto o ministério do apóstolo se resumia em agradar a Deus e ser servo de Cristo (1.10), o intuito dos falsos mestres era seduzir aqueles irmãos para que tivessem “interesse por eles” (4.17). Com um ensino pseudocristão, eles acrescentavam ao evangelho do Cristo crucificado (3.1) os “rudimentos do mundo” (4.3) e buscavam um “aperfeiçoamento na carne” (3.3) através da obediência à lei, guardando “dias, meses, tempos e anos” (4.10). Acrescentar algo à obra de Cristo, tanto para justificação quanto para santificação, é na verdade diminuí-lo. Constantemente Paulo exortou os “insensatos” (3.1) à retornarem ao evangelho.

A pergunta, porém, que fica para nós é: qual o papel da lei para o cristão? Se ela não pode mudar o nosso status perante Deus, devemos ainda obedecê-la? Devemos adotar uma posição antinomista ou irmos para o outro extremo do legalismo? Essa tensão está presente em toda carta aos Gálatas. Aliás, foi Martinho Lutero quem disse: “Quem sabe distinguir corretamente o Evangelho da Lei, deve agradecer a Deus e pode estar certo de que é um teólogo”.

John Bunyan nos ajuda quanto ao papel e importância da lei. Em seu livro “O Peregrino”, Bunyan narra a chegada do Peregrino à casa do Intérprete. Em cada cômodo que ele entrava na casa, uma cena diferente estava exposta perante os seus olhos. Ele dependia do Intérprete para interpretar aquelas cenas. Um desses cômodos visitados foi uma sala muito grande que estava cheia de poeira pois nunca era varrida.

Depois de ser vista por um momento, o Intérprete chamou um homem para varrê-la. Assim que o homem começou a varrer, o pó espesso voou em derredor e o Cristão (Peregrino) ficou quase sufocado.

Então o Intérprete pediu a uma moça que estava de prontidão: “traga água e borrife a sala!”. A sala foi limpa e varrida completamente.

O Cristão sem entender muito o que aquela cena significava, perguntou ao Intérprete. A resposta foi a seguinte:

“Esta sala é o coração de um homem que nunca foi santificado pela doce graça do evangelho. O pó é seu pecado original e as corrupções interiores que contaminaram todo o homem. Aquele que começou a varrer é a Lei; mas aquela que trouxe água e a espargiu é o Evangelho. Ora, logo que o primeiro começou a varrer, a poeira se levantou em redor; a sala não pôde ser limpada por ele, e você ficou quase sufocado. Isso lhe mostra que a Lei, em vez de limpar do coração o pecado (pela maneira como ela age), revive-o, fortalece-o e aumenta-o na alma, ao mesmo tempo que o revela e proíbe, porque não concede o poder de reprimi-lo.

Por outro lado, assim como você viu a moça borrifar a sala com água, e, deste modo, a limpeza foi realizada com prazer, isso lhe mostra que o evangelho, ao entrar no coração, exerce suas doces e preciosas influências. Então, digo-lhe que, assim como você viu a moça fazer o pó assentar-se, borrifando o chão com água, assim também o pecado é vencido e subjugado, e a alma torna-se limpa, pela fé descrita no evangelho; consequentemente, a sala fica em condições para o Rei da Glória habitar.”

Veja que para Bunyan a lei de Deus é extremamente útil e necessária. Sem ela o pó do pecado original permaneceria intacto ou acomodado ao chão da sala (coração humano). Mas, quando a lei subiu em forma de poeira, a sujeira foi exposta! E, logo em seguida foi necessário recorrer à água – o evangelho! Com toda certeza Lutero diria que Bunyan era um bom teólogo.

Da mesma forma Paulo diz que embora o homem não seja “justificado por obras da lei e sim mediante a fé em Cristo” (2.16), que ele “morreu para a lei” (2.19) e que a justiça obtida pela lei é contrária à justiça obtida pela morte e obra de Cristo (2.21), o apóstolo também nos ensina sobre a importância da lei. Sabendo que seus opositores levantariam objeções quanto ao que ele estava falando, Paulo adianta o questionamento: “Logo, para que é a lei? Ela foi acrescentada por causa das transgressões…” (3.19). Está aí a necessidade e validade da lei para todos os tempos. É perante ela que damos conta que somos transgressores. O papel da lei não é nos justificar, mas nos condenar. Nas palavras de Bunyan, o papel dela é levantar a poeira do nosso coração. Portanto, não cabe o argumento antinomista dizendo que a lei caducou ou que “não estamos debaixo da lei”. Ela permanecerá para sempre, pois é a vontade divina e Deus é imutável. Devemos ler o contexto do argumento de Paulo quando ele diz que “não estamos debaixo da lei”, o contexto é a justificação. É nesse sentido que não estamos debaixo dela, ou seja, não dependemos dela para nos justificarmos.

Talvez uma outra objeção poderia ser levantada pela audiência de Paulo: “Mas, e no meu caso que já sou salvo, já recorri a Cristo para minha justificação, ainda devo obedecer a lei?”. A resposta de Paulo seria um enfático “sim”! Veja o que ele diz:

“13 […] Mas não usem a liberdade para dar ocasião à carne; pelo contrário, sejam servos uns dos outros, pelo amor. 14 Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: “Ame o seu próximo como a você mesmo.” (5.13-14).

Embora alcançamos a nossa liberdade pela fé em Cristo, Paulo diz que somos “servos uns dos outros” e é amando que cumprimos com a lei. Ainda é obrigatório cumprirmos a lei, a diferença é a nossa motivação. A motivação agora é o amor e não a busca ao mérito. É isso que Paulo disse anteriormente “[…] a fé atua pelo amor” (5.6).

De forma semelhante o apóstolo diz que se levarmos as “cargas uns dos outros” cumpriremos a “lei de Cristo” (6.2). Essa “lei de Cristo” não é diferente de “servirmos uns aos outros” (5.13). Cristo é o nosso grande exemplo e nossa grande motivação. É movido pela fé que temos nele que amaremos aos outros e assim obedeceremos a lei divina.

Resumindo o argumento do apóstolo: a lei não nos justifica, mas nos condena. Ela nos serve como um tutor até Cristo (3.24), demonstra a necessidade que temos de um salvador. Mas, uma vez que estamos em Cristo, uma vez que recebemos a adoção e herança por meio somente dele, agora livremente e em amor obedeceremos a nosso Senhor e serviremos o nosso próximo. Assim, cumpriremos a lei.

Por último, devemos lembrar da tradicional divisão da lei proposta por Myles Coverdale (1488-1569), abraçada por João Calvino e pela maioria dos reformadores:

Lei moral – Resumida nos Dez Mandamentos, é o padrão justo e eterno para a nossa relação com Deus e com as pessoas.

Lei civil[1] – Era composta por leis que regiam Israel como nação sob o governo divino. Nelas havia orientações para entrar em guerra, restrições ao uso da terra, regulamentos para a dívida e pensa por violações específicas do código legal de Israel.

Lei cerimonial[2] – Consistia em regulamentos para celebrar festas religiosas e para adorar Deus no santuário. Incluías as leis relativas aos alimentos limpos e imundos, instruções para a pureza ritual, orientações para a conduta dos sacerdotes e, especialmente instruções para oferecer sacrifícios (sistema sacrificial).

Embora possamos achar princípio e sabedoria divina nas leis civis e cerimoniais, desses três tipos de leis, somente a lei moral permanece para todos os crentes. O que Deus reafirmou ao seu povo no pé do Monte Sinai são princípios pelos quais ele governa sua criação. Podemos inclusive dizer que esses “Dez Mandamentos” estavam presentes no Éden (Gn 1-2). Jesus resumiu esses mandamentos da seguinte forma: amar a Deus e amar ao próximo (Mt 22.37-38).

Lembremo-nos da conclusão do sábio:

“De tudo o que se ouviu, a conclusão é esta: tema a Deus e guarde os seus mandamentos, porque isto é o dever de cada pessoa” (Ec 12.13).

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