O Evangelho no Mundo Árabe

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“Todos os árabes são muçulmanos!” Provavelmente é isso que vem à mente quando ouvimos a palavra árabes. A maioria de nós, no Ocidente, usa as palavras árabe e muçulmano como intercambiáveis, e alguns até podem usá-las como sinônimos. Reconhecidamente, muitos muçulmanos promovem tais noções na tentativa de ofuscar a presença de milhões de cristãos no mundo árabe.

No entanto, nem todos os árabes são muçulmanos, assim como nem todos os muçulmanos são árabes. O fato é que a fé cristã alcançou os árabes no primeiro século, muito antes de o Islã ser estabelecido no século VII. O Evangelho de Cristo foi anunciado aos árabes no dia de Pentecostes, como Lucas registra em Atos 2.11. Falando em línguas sobrenaturalmente dadas pelo Espírito Santo, Pedro e os discípulos proclamaram as poderosas obras de Deus em muitas línguas, incluindo o árabe. As boas novas de salvação se espalharam pelo que hoje é o mundo árabe, e igrejas foram estabelecidas nas principais cidades do Oriente Médio e Norte da África (MENA, em inglês). Pais da Igreja importantes floresceram no Norte da África, incluindo Clemente (150-215); Orígenes (184-253); e Atanásio (296-373) em Alexandria, Egito; Tertuliano (160-220) em Cartago (atual Tunísia); e Agostinho (354-430) em Hipona (a moderna cidade de Annaba, Argélia). A Escola Catequética de Alexandria, um dos centros mais importantes de aprendizado cristão na igreja primitiva, foi estabelecida no segundo século para ensinar assuntos como teologia, filosofia cristã e a Bíblia, bem como ciências, matemática, lógica e artes.

Com a ascensão do Islã, no entanto, o cristianismo sofreu muito nas regiões MENA. No entanto, pela graça de Deus, a igreja continuou ali ao longo dos tempos, enfrentando oposição e perseguição. Embora o Islã seja a religião predominante no mundo árabe, nunca devemos esquecer ou negligenciar os milhões de cristãos árabes que traçam as raízes de sua fé cristã até o Dia de Pentecostes e o trabalho missionário subsequente dos discípulos e apóstolos de Cristo.

Globalmente, existem, atualmente, 420 milhões de pessoas que falam árabe. Elas vivem no Oriente Médio, no Norte da África, na Península Arábica e na diáspora ao redor do mundo. As três regiões principais abrangem vinte e cinco países. Embora esses países sejam etnicamente diversos, o árabe é a língua dominante e o islamismo é a religião dominante. Ainda assim, em muitas nações árabes, igrejas cristãs são estabelecidas, associações são formadas e até mesmo escolas bíblicas e seminários são criados para treinamento de liderança e educação bíblica. A Península Arábica é o coração do Islã. Não houve uma igreja viável naquela região em 1.400 anos, desde a criação do Islã. Ainda assim, há um número crescente de crentes em cada um dos sete países da península: Bahrein, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Iêmen.

As convulsões associadas à “Primavera Árabe”, que começaram no final de 2010 e levaram à desestabilização e à renúncia de líderes políticos, deram origem a uma nova era sem precedentes, de questionamento de tradições, visões políticas e crenças religiosas, há muito estabelecidas entre os árabes. Levantes políticos trouxeram uma nova sensação de liberdade, entre os muçulmanos, para criticar seus líderes religiosos. Além disso, a ascensão do ISIS, que se proclama a verdadeira representação do Islã e obriga a conversão, sob pena de morte, todos aqueles que estão sob seu domínio, levou muitos muçulmanos a abandonar o Islã em busca da verdade e procurar respostas para suas perguntas espirituais. Como resultado, milhares de muçulmanos estão se convertendo ao cristianismo no Norte da África. No norte da Argélia, um avivamento cristão está ocorrendo há alguns anos entre um grupo do povo Cabila[i], muitos dos quais estão começando a ter fé no Senhor Jesus. Além disso, um mini reavivamento está acontecendo no Iêmen em meio a uma trágica guerra civil que está destruindo o país e seu povo. A mídia chamou essa guerra de “guerra esquecida”, mas sabemos que o Senhor não se esqueceu de seu povo ali. A terrível guerra civil no Iêmen e a opressão na Arábia Saudita tornaram as pessoas conscientes de suas necessidades, tornando-as mais abertas ao Evangelho. De fato, Deus está rompendo dois dos países islâmicos mais conservadores do mundo hoje.

O custo para seguir a Cristo é extremamente alto em qualquer país árabe. Esses novos crentes de origem muçulmana enfrentam perseguição potencial e real diariamente. É ilegal, no mundo árabe, se converter do islamismo ao cristianismo, então novos cristãos, às vezes, são mandados para a prisão ou mortos. Muitos deles estão privados de qualquer comunhão cristã e alguns deles vivem em lugares onde não existe uma igreja nativa. Em muitos países árabes, é legalmente proibido realizar reuniões cristãs em casa. No entanto, os novos crentes se reúnem secretamente em pequenos grupos domésticos para estudar a Bíblia e orar uns pelos outros.

Ainda assim, a igreja de língua árabe está enfrentando diversos tipos de desafios, que podem ser divididos em dois grupos principais. Primeiro, existem desafios que vêm do Oriente. Esses desafios incluem ascetismo, gnosticismo, misticismo e monaquismo. Essas tendências “espirituais” e filosóficas são tipicamente associadas a igrejas orientais encontradas em países árabes (historicamente, essas famílias religiosas incluem as igrejas ortodoxas orientais e as igrejas católicas orientais), que ensinam uma salvação baseada nas obras e enfaticamente rejeitam os ensinamentos da Reforma. Obviamente, os desafios do Oriente incluem o que o Islã traz com sua negação da Trindade, da divindade de Cristo e da crucificação.

O segundo grupo de desafios vem do Ocidente. As principais igrejas protestantes nas regiões MENA são amplamente manchadas pela teologia liberal exportada do Ocidente. A exclusividade de Cristo e a salvação apenas em seu nome são vistas como formas de fundamentalismo incompatíveis com a modernidade. Como resultado, o sincretismo está se espalhando como um incêndio em muitos países do Oriente Médio. Além disso, os cultos religiosos ocidentais, como os das Testemunhas de Jeová, os Mórmons e os Adventistas do Sétimo Dia, estão promovendo ativamente seus ensinos e tentando fazer convertidos. Pregadores de saúde, riqueza e prosperidade estão chegando aos países árabes por meio de tradução e dublagem de vídeo. Movimentos carismáticos produziram pastores, em muitos países árabes, que minam a suficiência das Escrituras e buscam revelação extrabíblica.

Em meio a esse tipo de desafio, no entanto, nosso Senhor soberano não se deixou sem testemunha e não abandonou sua igreja no mundo árabe. Existem igrejas fiéis no mundo árabe, proclamando as excelências de Cristo e as glórias de seu Evangelho. Hoje, o Evangelho está avançando entre os árabes de maneiras sem precedentes, apesar da oposição e dos desafios. Jesus está expandindo seu reino até mesmo no mundo árabe.

O crescente interesse no cristianismo entre os árabes levanta a seguinte questão: Como os crentes de língua árabe serão edificados na fé quando não há acesso a recursos bíblicos sólidos em sua própria língua? As igrejas, no mundo árabe, estão enfrentando a necessidade de dar respostas bíblicas aos muçulmanos que fazem perguntas teológicas. Além disso, muitas igrejas carecem de um conhecimento básico de evangelismo bíblico, missões e discipulado. Recursos bíblicos e teológicos sólidos de uma perspectiva reformada são muito raros em árabe. A maioria dos materiais cristãos disponíveis no mundo árabe refletem os ensinamentos do Evangelho da prosperidade, promovem a teologia liberal ou são escritos do ponto de vista das igrejas orientais. As igrejas evangélicas estão solicitando recursos teológicos e treinamento para equipar seus membros e edificá-los na fé.

É por isso que em 15 de março de 2019, os Ministérios Ligonier anunciaram o lançamento de seu evangelismo árabe. Essa nova iniciativa importante inclui um site (ar.ligonier.org) e plataformas de mídia social onde pessoas de língua árabe de qualquer país podem acessar gratuitamente recursos teológicos e bíblicos confiáveis ​​em árabe. Artigos, livros e séries de ensino de vídeo recém-traduzidos são adicionados regularmente ao site. Esses materiais são traduzidos para o árabe padrão moderno para superar as diferenças entre os dialetos árabes coloquiais e subdialetos regionais. O árabe padrão moderno é amplamente conhecido entre os falantes de árabe. A acessibilidade da Internet e os novos avanços tecnológicos, incluindo smartphones e tablets, permitiram que a distribuição de recursos digitais alcançasse milhões de pessoas em países fechados onde antes era quase impossível levar o Evangelho. A série de vídeo aulas do Ligonier, com legendas em árabe, é transmitida para o mundo árabe em uma estação de TV cristã via satélite, três dias por semana. Por meio dos esforços do Ligonier, a verdade da Palavra de Deus é compartilhada entre milhões de árabes em sua própria terra e em seu próprio idioma.

Além disso, o Ligonier está trabalhando com editoras cristãs conhecidas, no Oriente Médio e no Norte da África, para planejar a tradução, impressão e distribuição de uma variedade de títulos pelo Dr. R.C. Sproul e outros. Essas parcerias internacionais com igrejas, organizações e editoras buscam encorajar os cristãos de língua árabe com a Palavra de Deus, especialmente em meio a grande sofrimento e turbulências.

Sabemos que Deus estabelecerá sua igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Portanto, oremos para que ele ministre aos nossos irmãos e irmãs de língua árabe a quem ele escolheu em Cristo antes da fundação do mundo (Ef 1.4).

Artigo Original: Voltemos ao Evangelho.

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