O antissemitismo cristão e o poder das narrativas

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Na minha última viagem a Israel e aos Territórios Palestinos, em 2017, algo ficou claro para mim: para compreender a natureza do conflito, é necessário ir além dos fatos históricos propriamente ditos. É preciso entender as narrativas pelos quais eles são lidos e interpretados. Isso faz com que um mesmo acontecimento seja percebido de maneiras completamente diferentes, a depender de qual lado você se posiciona.

Nesse sentido, o ano de 1948, por exemplo, se compreendido pela ótica israelense seria a Guerra de Independência, que resultou na morte de 1% da população judaica de Israel na época, mas consolidou o movimento de autodeterminação do povo judeu, estabelecendo, em sua terra natal, um país capaz de protegê-lo após séculos de perseguições e tentativas de genocídio. Dessa maneira, os principais culpados pelo conflito seriam os países árabes, que não aceitaram a Resolução 181 da Assembleia Geral da ONU de 30 de novembro de 1947, que previa a criação de um Estado judeu e outro árabe.

Ao mesmo tempo, sob a perspectiva palestina, esse foi o período da nakba, da “tragédia”. A independência de Israel é lembrada até hoje como uma das causas que levaram ao deslocamento forçado de 600.000 a 750.000 palestinos, entre 1947 a 1950, como destaca o renomado historiador Benny Morris. O fato é percebido pelos árabes como uma extensão do imperialismo europeu contra os povos médio-orientais e foi interpretado à luz do antigo antissemitismo presente no mundo islâmico.

Enquanto sionista, confesso reconhecer a primeira narrativa como a leitura mais acurada dos fatos. No entanto, busco não ignorar a perspectiva palestina e seus símbolos nacionais. Como afirmava o escritor israelense Amós Oz, em muitos aspectos, este é um conflito entre o “certo e o certo”. Essa percepção me parece coerente com o Cristianismo que professo, segundo o qual, embora existam verdades absolutas, devido a nossas limitações como seres humanos, nem sempre somo capazes de identificá-las por completo. E é por isso que as narrativas acabam sendo tão importantes – dependendo da situação, consequentemente nefastas, como percebido triste histórico de relações judaico-cristãs. Por mais que o Novo Testamento seja claro que toda humanidade é pecadora e, por isso, culpada, como um todo, pela crucificação de Jesus Cristo, durante séculos os judeus foram perseguidos, acusados de serem os únicos responsáveis por esse ato da soberania divina.

O antissemitismo cristão é um dos maiores oxímoros da humanidade, tendo em vista que a própria fé cristã descende do Judaísmo e que a maioria dos escritores do Novo Testamento, se não todos, eram judeus, assim como o próprio Jesus. O apóstolo Paulo, em sua carta aos Romanos, deixa claro em diversos momentos a importância do povo judeu e afirma, de modo categórico, que mesmo os judeus que rejeitam a mensagem do Cristianismo ainda são amados por Deus devido à eleição de Abraão e demais patriarcas judeus. Apesar disso, desde a Idade Média, passando pela Reforma Protestante, até os dias atuais, muitos cristãos têm se deixado levar por falsas narrativas de que os descendentes físicos de Abraão cometeram o pecado imperdoável do “deicídio”, o assassinato do Filho de Deus, e que por isso não são pessoas confiáveis.

Esse grave erro teológico causou aos judeus grande sofrimento. Muitos foram torturados e mortos pela Inquisição na Europa e forçados a se converterem ao Cristianismo. Durante a Reforma Protestante não foi muito diferente. Os escritos antissemitas de Martinho Lutero eram tão virulentos que foram amplamente utilizados por pastores alemães para justificar o Nazismo. Por mais que nos últimos anos tenha havido grande progresso nas relações judaico-cristãs, sobretudo após o Holocausto, e com o advento do chamado “Sionismo Cristão”, o conflito palestino-israelense tem feito ressurgir no seio da Cristandade novas narrativas antissemitas, principalmente em círculos teológicos mais progressistas.

É uma tentativa de modificar o relato histórico bíblico, sobretudo do Antigo Testamento, para atacar algumas bases do Sionismo e justificar alguns movimentos nacionalistas palestinos. Isso geralmente ocorre por meio de uma reinterpretação das promessas feitas por Deus a Abraão no livro de Gênesis. Por meio do uso de hermenêuticas pós-modernas e pós-estruturalistas, há teólogos que defendem que em momento algum essas promessas foram destinadas exclusivamente ao povo judeu, mas sim à humanidade como um todo, que por meio de Jesus seria um dia restaurada. Logo, os judeus nunca teriam sido uma nação especial diante de Deus. Além dessa resignificação dos textos bíblicos, outra estratégia é minimizar o fato de que os judeus são um povo nativo do Oriente Médio.

Um amigo cristão palestino nascido na Faixa de Gaza, por exemplo, me disse que durante toda sua infância, assistindo aulas em escolas controladas pelo Hamas, havia sido ensinado que os judeus nunca viveram na região onde hoje está situado o Estado de Israel, e que o templo de Salomão nunca fora construído, sendo uma mera invenção sionista. Apenas ao se mudar para a Cisjordânia, na adolescência, é que ele teve acesso a uma Bíblia com o Velho Testamento em árabe e ficou surpreso ao ver o que as Escrituras falavam sobre o povo judeu.

Cientes disso, muitos historiadores árabes têm tentado atacar a historicidade e veracidade do relato veterotestamentário. Apesar de isso ser algo praticamente impossível diante das atuais descobertas arqueológicas em Israel, esse é um discurso que tem ganhado força, inclusive em organismos internacionais, como é o caso da Resolução aprovada pela UNESCO que nega a existência de conexões históricas entre o Judaísmo e o chamado Monte do Templo, onde hoje estão localizados o Muro das Lamentações e a Mesquita Al-Aqsa, em Jerusalém.

Para a maioria dos evangélicos conservadores tudo isso pode parecer absurdo. Porém, acho que poucos percebem as maneiras sutis como essa narrativa tem entrado em nosso meio. O exemplo mais claro são os mapas encontrados no final de muitas das Bíblias protestantes. É comum haver títulos como “Palestina nos tempos de Jesus”. Tal expressão, porém, é completamente anacrônica, tendo em vista o fato de que na época em que Jesus viveu a região ainda era conhecida como “Judeia e Samaria”, passando a ser chamada de “Palestina” pelos romanos apenas em 70 d.C, como uma forma de humilhar o povo judeu fazendo uma referência aos seus inimigos históricos, os filisteus.

Um caso mais extremo dessa tentativa de “palestinizar” o relato bíblico é uma nova tradução da Bíblia para o dinamarquês, que omite todas as referências ao termo “Israel”, usando-se apenas “judeus” ou “terra dos judeus”. Segundo a Sociedade Bíblica da Dinamarca, a decisão tem como objetivo evitar que as pessoas façam associações entre o Israel da Bíblia e o atual Estado judeu. Embora essa preocupação pareça legítima, ela na verdade está baseada nos mesmos pressupostos empregados por aqueles que tentam deslegitimar a existência de Israel como nação, algo, no mínimo preocupante diante do crescimento do antissemitismo no mundo.

Eu sei que a questão do futuro da nação de Israel é um assunto complexo dentro da teologia cristã e que nem todos os meus irmãos na fé conseguem enxergar os mesmos motivos bíblicos que eu para justificar o Sionismo Cristão. No entanto, creio que essa é uma questão que vai muito além de preferências políticas ou diferenças de sistemas teológicos. Pelo contrário, negar o papel dos judeus na História da redenção e sua conexão territorial com o Oriente Médio é negar as próprias bases da nossa fé, em especial o princípio da inerrância bíblica.

Logo, não há nenhum problema em reconhecer o sofrimento do povo palestino e simpatizar com algumas de suas causas políticas. Mas, há questões são muito maiores do que uma simples guerra de narrativas, sobretudo para os cristãos. E, em especial, quando se trata do nosso relacionamento com o povo judeu. A História pode ser interpretada de forma diferentes, mas há fatos que jamais podem ser negados ou esquecidos. Um deles é a realidade de que os judeus são um povo nativo à terra da Bíblia.

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