Não só de pão

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Entre as diversas dificuldades que a pandemia de COVID-19 tem imposto, ou irá impor, sobre nós, uma das mais assustadoras está relacionada ao nosso sustento. Muitas famílias enfrentarão redução significativa, ou até mesmo completa, em suas rendas. Para alguns, isso significará cancelar uma viagem, para outros deixar o hábito de frequentar restaurantes e cinema. Entretanto, em um país como o Brasil, de tamanhas desigualdade e injustiça, não é exagero afirmar que grande parte das famílias lutarão para conseguir suprir a mais básica necessidade, pão.

Obviamente, que o primeiro impulso, quando se fala em pessoas lutando para conseguir o que comer, é tratar da caridade cristã e dos ministérios de misericórdia (e pretendo tratar disso em outro texto), mas, e se minha família for uma destas? Se minha esposa e filhas estiverem passando fome? Onde posso encontrar suprimento, refúgio e consolo para uma situação como essa? Quando perguntas como estas surgem, rapidamente, nossa alma é levada a um turbilhão de ansiedade e conflito. Duas verdades bíblicas, porém, têm trazido paz e alegria ao meu coração.

O criador conhece nossa necessidade

Em certo momento do sermão do monte, o Senhor Jesus dedica-se a tratar justamente desse tipo de angústia: “Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas, buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.31-33). Como é característico de sua misericórdia e condescendência, nosso salvador não simplesmente joga essa verdade sobre seus discípulos, esperando que eles a entendam e obedeçam. Com cuidado pastoral, Jesus nos pega pela mão e leva a compreender a maravilhosa verdade do cuidado divino.

“Não é a vida mais do que o alimento?” (Mt 6.25). A pergunta de Jesus evidencia um argumento muito simples: se o Pai tem poder para criar e manter a vida, não seria ele poderoso para suprir alimento? Se temos crido que Deus é todo poderoso, criador dos céus e da terra, como podemos duvidar da capacidade divina em suprir para as criaturas que ele criou? Por isso, Cristo nos desafia a observar as aves: “não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta”; e a considerar a posição elevada da humanidade aos olhos do Pai: “porventura, não valeis vós muito mais do que as aves?” (Mt 6.26).

Jesus também ensinou os discípulos sobre o cuidado do criador pouco antes, ao ensiná-los como orar. O catecismo de Heidelberg faz a seguinte afirmação sobre a quarta petição da oração do Pai nosso:

“O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. Quer dizer: Cuida de nós com tudo o que for necessário ao nosso corpo, para que reconheçamos que tu és a única fonte de todo o bem e que, sem tua bênção, nem nosso cuidado e trabalho, nem teus dons nos são úteis. Faze também com que, por isso, não mais depositemos nossa confiança em qualquer criatura, mas somente em ti. (Pergunta 125)

O poder do criador dissipa a preocupação. A bondade do Senhor acaba com a inquietação.

Há uma dádiva mais sublime que pão

Em certa medida, é natural ser consolado com a promessa de que o Senhor proverá. Porém, quando o desafio é aprender que pão não é a necessidade mais básica do ser humano, essa é a turma que nenhum aluno quer ser matriculado.

Israel precisou aprender essa lição. Quando Moisés preparava o povo para entrar na terra prometida ele disse: “Ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem” (Dt 8.3). O Senhor Jesus também experimentou essa realidade. Após 40 dias em jejum, tendo fome, ao ser tentado por Satanás, Cristo usou as palavras de Moisés para afugentar o cão-tinhoso: “Não só de pão viverá o homem” (Mt 4.4).

O que, então, pode ser mais importante que pão? Tanto Moisés quanto Jesus, afirmaram: “tudo que procede da boca de Deus” (Dt 8.3; Mt 4.4). Penso que a explicação para o que isso significa, se encontra em João 6:

“Porque o pão de Deus é o que desce do céu e dá vida ao mundo. Então, lhe disseram: Senhor, dá-nos sempre desse pão. Declarou-lhes, pois, Jesus: Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede. […] Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne” (Jo 6.33-35,51).

Cristo é melhor que pão!

Jesus é o bem mais sublime que um homem pode ter e querer. O corpo de Cristo, esmagado por nossos pecados, ressurreto pelo Espírito, é o alimento que sacia eternamente os que confiam em sua bondade e justiça. Os prazeres ou aflições passageiras desta vida, não podem ser comparadas a alegria de estar em Cristo, ser amado e aceito por ele.

As palavras de vida eterna saciam corpo e alma.

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