Estaria o “Coringa” em nós?

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O burburinho que antecedeu o lançamento do filme “Coringa” foi tão bipolar e caótico quanto o próprio vilão icônico. Alguns críticos elogiaram o “spin-off” de Batman dirigido por Todd Phillips, que ganhou o prêmio máximo e foi ovacionado por oito minutos no Festival de Veneza, em agosto. Outros detestam o filme, por várias razões: “famoso e glamoroso” o vilão; é “um hino para os ‘incels[i]’”; “Uma história venenosa para um tempo carregado”.

Pode-se imaginar o Coringa gargalhando com o caos que essa representação de sua história causou, provocando manifestações de todas as direções. É exatamente o que ele quer. Enquanto lutamos para entender o Coringa e somos levados por ele a reagir de várias maneiras, os cineastas estão ganhando muito dinheiro.

Todos os filmes são espelhos, mesmo quando não gostamos do que vemos neles, e mesmo quando o filme não é particularmente cuidadoso sobre como e o que reflete. O Coringa reflete tanto cada um de nós quanto nosso momento cultural, de forma que faríamos bem em considerá-lo.

Você não está entretido?

O que diz, sobre nós, uma história de origem sombria e desastrosa, sobre o vilão de quadrinhos mais famoso do mundo, que provavelmente será um dos filmes com maior bilheteria do ano? Por que nos reunimos para ver a criação de um psicopata, com alegre expectativa pelo sangrento espetáculo que sabemos que concluirá o filme (e que algumas pessoas aplaudiram, de forma perturbadora, no cinema em que o vi)?

É a mesma razão pela qual não podemos desviar o olhar de um acidente de carro na estrada ou porque muitas vezes ficamos grudados à TV durante os últimos atentados terroristas, tiroteios em massa ou desastres naturais. É por isso que o julgamento de O. J. Simpson e a Guerra do Golfo basicamente inventaram a TV de notícias por assinatura. É por isso que a demorada transmissão de Breaking Bad foi absolutamente cativante de assistir. É por isso que o horror é o gênero de Hollywood mais lucrativo. Algo em nós é simultaneamente repelido e atraído pelo macabro, pelo grotesco, pelo horripilante.

As primeiras palavras que ouvimos no Coringa são “as notícias nunca cessam” e, ao longo do filme, a cobertura da imprensa sobre o crime de Gotham aparece com destaque. Um ato chocante de violência na televisão ao vivo catalisa o clímax do filme, lembrando filmes recentes como Christine de 2016 e Nightcrawler (O Abutre) de 2014, que exploraram a interseção entre mídia e violência (“se tem sangue, lidera a audiência”).

Por que ficamos, ouso dizer, entretidos ao ver a destruição e a calamidade se desenrolar? Eu me incluo nessas perguntas. Por que eu achei a representação do Coringa, por de Health Ledger, vencedor do Oscar no “O Cavaleiro das Trevas” (2008), tanto profundamente perturbadora quanto um tanto “legal”? Quando ele se afasta do hospital em chamas usando uma roupa de enfermeira, quando usa uma bazuca ou uma metralhadora, o público se delicia com seu estilo gótico-glamoroso e seu inegável carisma. Certamente, há momentos no Coringa, em que Joaquin Phoenix – embora seja um Coringa mais desajeitado, nerd e menos confiante – onde ele canaliza essa mesma arrogância do submundo.

O Coringa, como o próprio Satanás, sabe que os humanos são criaturas inerentemente perversas, atraídas pelo espetáculo, viciadas em novidades, propensas a se divertirem até à morte. Dessa maneira, Coringa é o bicho-papão perfeito para a nossa época, incorporando o poder tóxico e corrosivo de uma sociedade atraída por espetáculos, obcecada por entretenimento e hiper influenciada pela mídia.

Se nos sentimos grosseiramente “entretidos” assistindo à queda sombria do Coringa (e nas mãos de Joaquin Phoenix é realmente um espetáculo cativante), é exatamente esse o sentimento que Philipps quer evocar. Enquanto assistimos às sequências grotescas e repetidas em câmera lenta desse maníaco homicida dançando “a lá” Frank Sinatra, devemos nos perguntar: É isso que nos diverte hoje? Por quê?

Especialmente para os cristãos, as perguntas parecem urgentes: por que as representações do mal e do estado caído são tão atraentes, e até “legais”? Essa poderia ser uma manifestação da ênfase crescente de nossa cultura no valor empobrecido do “dever e honra”, dos relacionamentos e “autenticidade” sem filtros? Hoje em dia é mais difícil se identificar com o “mocinho”, se é que acreditamos que ainda existam “mocinhos”, do que com a fragilidade e escuridão de Arthur Fleck em Coringa – agora com o qual podemos nos relacionar. Se existe mesmo uma parcela de verdade em que um vilão do tipo “eu sou uma confusão” claramente doentio como Fleck é mais atraente e com qual o público se identifica mais facilmente do que um herói mais estável e com moral, então o Coringa está realmente em nós.

Por que tão sério?

Talvez a frase mais icônica do Coringa do Cavaleiro das Trevas de Ledger, “Por que tão sério?”, possa ser perguntada sobre Coringa, um filme que, diferentemente de seus parentes em quadrinhos, não é nada divertido. De fato, a estética sombria do filme – uma Gotham decadente do começo dos anos 80 que invoca o Taxi Driver de Martin Scorsese – promove um tom de tristeza que parece apropriado para o nosso momento cultural. Mas a pergunta “por que tão sério?” também pode ser feita a nós.

A raiva fervilhante e o niilismo sem alegria no coração do Coringa são adequados para o nosso momento de “carnificina americana”, não é? Se o Coringa produz fetiche por raiva e cinismo, é apenas porque é isso que o nosso ambiente de mídia também produz. Se o Coringa acha que é mais importante do que é, “um projeto que se afoga na auto seriedade”, é apenas porque este é o nosso pão diário nas mídias sociais: onde as opiniões inflamadas de todos parecem (para eles) muito importantes e onde cada nova afronta é de extrema urgência.

O mundo de hoje está constantemente zangado, tudo é politizado e qualquer coisa remotamente agradável é rapidamente sufocada sob o peso de acusações acumuladas e desconstrução vigilante. Quase qualquer coisa popular ou agradável vai inevitavelmente inspirar ondas de reações adversas, depois reações para a reação e assim por diante. Pancada sobre pancada. É cansativo.

Certamente, o entretenimento pode ser perspicaz e “relevante”; Certamente, existem questões cruciais que precisam ser abordadas pela arte e crítica. Mas especialmente os cristãos devem lutar pelo valor da alegria, prazer, lazer, diversão, beleza – coisas que são valiosas justamente porque são frequentemente irrelevantes. Um mundo sem tempo ou espaço para tais coisas – onde tudo é debate, subentendido e comentário – é um mundo onde Deus que dá a graça abundante do “Sabbath”, parecerá cada vez mais distante e indesejável.

Explicando o Mal

E por falar de um Deus distante, essa é outra maneira pela qual o Coringa mostra um espelho para o nosso momento cultural. É um filme que continua a tendência dos filmes do Batman de Christopher Nolan: filmes de super-heróis nos quais o sobrenatural está visivelmente ausente. É um mundo onde o bem e o mal, como categorias transcendentes, não existem e, como Alissa Wilkinson ressalta, “o terror do Coringa é curiosamente adulterado”.

De fato, mesmo no universo “Cavaleiro das Trevas”, sem alma, de Nolan, o Coringa de Ledger é inegavelmente mau: perturbador porque ele não tem uma história de fundo; movido por uma força incontrolável que parece não ter origem aparente, que não enfraquece, sem rima ou razão. Mas nesse filme de Philipps e Phoenix há um grande esforço para explicar o mal do Coringa. Não para justificá-lo ou defendê-lo, certamente, mas para situá-lo em um mundo imanente, onde um comportamento horroroso deve ser o efeito de alguma causa natural.

É interessante que, no início desse ano, Phoenix tenha estrelado como Jesus no terrível “Maria Madalena”, um filme que fundamentou Jesus em um mundo completamente imanente e desencantado, assim como Coringa baseia seu vilão diabólico em um contexto humano e humilde. Jogando nos dois lados do espectro do bem e do mal, Phoenix é certamente interessante de assistir; suas sequências de atuação são formidáveis. Mas exagerar o mal no Coringa é tolice. Não tenho certeza se Phoenix ou Phillips usariam a palavra “pecado” para descrever o que está acontecendo com Fleck. Para dar alguma lógica, “aqui está o porquê de ele ter ido tão mal” a história de Joker, o filme reflete uma sociedade que luta para saber o que fazer com o mal.

Por mais assustador que seja, às vezes, Coringa me fez pensar no massacre de Las Vegas (muito mais assustador) em 2017. É o tiroteio em massa mais mortal da história dos EUA, mas o único agressor não tinha motivo aparente. Em uma era secular, não sabemos o que fazer com isso. Isso não faz sentido. Estamos desesperados para encontrar causas contidas para o mau comportamento, porque essa é a escolha – que mostra que nossa natureza decaída pode levar qualquer um de nós a também se tornar um vilão – para alguns excessivamente perturbados.

Coringa tem muitos espelhos – muitas fotos de Fleck olhando para si mesmo, sua maquiagem de palhaço manchada de sangue e lágrimas. Mas as imagens terríveis de Fleck são menos perturbadoras do que o que o filme reflete de volta para nós: uma sociedade estranhamente intoxicada por espetáculos macabros, mas estranhamente resistente a confrontar as realidades do mal, muito menos em nossos próprios corações.

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