Esforce-se para ser mais satisfeito em Deus

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Planejamos publicar doze artigos com foco explícito no que chamamos de hedonismo cristão. Este é o primeiro.

Para nós, no Desiring God, é como dizer: “Vamos celebrar por existirmos”. O nome deste ministério é “Desiring God” (Desejando Deus) por causa do livro de 1987 com esse título. O subtítulo do livro é crucial: Meditações de um hedonista cristão. É assim que somos: cristãos hedonistas. Este site existe como um transbordamento de meditações bíblicas de cristãos hedonistas.

Meu objetivo aqui é esclarecer o que queremos dizer com esta frase “Hedonismo Cristão”.

Ora, eu sei que a expressão “hedonismo cristão” não está na Bíblia. Assim como as palavras Trindade, discipulado, evangelismo, exposição, aconselhamento, ética, política, carismático e muitos outras não estão na Bíblia. A Bíblia não inclui um sexagésimo sétimo livro chamado “Síntese Geral”. Também não possui um glossário de conceitos.

Deus se agradou em inspirar um volume com dezenas de belos fios da verdade entrelaçados em todos os sessenta e seis livros. Nem todos esses fios recebem nomes. Ele deixou muito trabalho glorioso para fazermos. “Grandes são as obras do SENHOR, consideradas por todos os que nelas se comprazem.” (Sl 111. 2). À medida que estudamos e trançamos os belos fios, e observamos o Mestre Tecelão, descobrimos realidades preciosas e lhes damos nomes para que possamos falar sobre elas à medida que se reúnem em padrões observáveis. Um desses padrões é o hedonismo cristão.

Glória Suprema, Alegria Suprema

Nossa frase favorita para explicar a essência do hedonismo cristão é a seguinte: Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele. Acreditamos que essa verdade tem suas raízes nos eternos relacionamentos trinitários da divindade. Acreditamos que é o cerne da razão pela qual Deus criou o mundo. E acreditamos que suas implicações para a vida, agora e para sempre, são abrangentes. Essa verdade toca todos os aspectos da vida humana – de beber suco de laranja a comer pizza (1Co 10.31), acolher os outros (Rm 15. 7), respirar nosso último suspiro (Fp 1.20). Não é periférico. Nunca. Não é em vão.

Você pode ter certeza de que estamos falando sério. Para nós, o hedonismo cristão não é um mero apelido ou slogan. É central para a obra de redenção de Deus e para o nosso viver a vida cristã. É central e abrangente, porque a glória de Deus é central e abrangente.

Ou, para mudar a metáfora espacial, uma vez que a glorificação de Deus é o fim último (não apenas o centro) da criação, o hedonismo cristão é de suma importância, porque Deus não será glorificado como deve, se seu povo não estiver satisfeito nele como deveriam estar.

Um povo de Deus cujos corações não estão supremamente satisfeitos com a grandeza, a beleza e a preciosidade de Deus, será um povo defeituoso e uma desonra a Deus. Portanto, o objetivo final do universo – a glorificação de Deus e o aperfeiçoamento de seu povo – depende do triunfo de Deus sobre nossas preferências pecaminosas pelo que não é Deus.

É isso que está acontecendo através da cruz, a ressurreição, o derramamento do Espírito Santo, o progresso da santificação e o aperfeiçoamento final de todas as coisas através de Cristo. Deus terá uma noiva perfeita e comprada com sangue para seu Filho, e não uma defeituosa. E ele será totalmente glorificado, não desonrado. Portanto, essencial para a beleza da noiva será sua satisfação no Filho de Deus. Sem isso, ela o envergonharia.

Westminster e Warfield

Uma maneira de testar se você é um hedonista cristão é se perguntar qual é a expressão e o significado da resposta à primeira pergunta do Catecismo de Westminster.

Pergunta 1: Qual é o fim supremo e principal do homem?

Resposta: O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.

Você pode achar estranha a pergunta: o que significa o segundo “e”? Mas talvez não seja tão estranha quando você parar para perceber que esses dois fins (glorificar e gozar) são chamados de “fim” na pergunta: “Qual é o fim supremo e principal do homem?”. Não diz: “Quais são os fins supremos e principais do homem?”. Portanto, o uso singular de “fim” é como uma bandeira sendo agitada à nossa frente que diz: “Pare. Pense. Como essas duas coisas estão relacionadas de tal maneira que são uma coisa só”?

O hedonismo cristão não é o primeiro a responder que o “e” significa “em” ou “por”. “O principal objetivo do homem é glorificar a Deus, desfrutando-o para sempre”. Em 1908, na Princeton Theological Review, Benjamin Warfield escreveu que o Catecismo de Westminster pode ter recebido sua segunda metade da primeira resposta (“e gozá-lo para sempre”) do William Ames Catechism, que de fato escreveu “para gozá-lo para sempre. “(Warfield’s Works, Vol. 6, Baker, 2003, 396).

O próprio Warfield virtualmente interpreta a dupla resposta da primeira pergunta de uma maneira cristã hedonista:

“Nenhum homem é verdadeiramente reformado [eu diria bíblico] em seu pensamento, a menos que ele conceba o homem não apenas como instrumento da glória divina, mas também como destinado a refletir a glória de Deus em sua própria consciência, a exultar em Deus: não , a menos que ele próprio se deleite em Deus como o Todo-glorioso.” (397).

Parafraseando: É insuficiente falar do homem como destinado a glorificar a Deus, sem também deixar explícito que o modo como o homem está destinado a glorificar a Deus é pelo estado interno de sua consciência; e esse estado interno de consciência, que glorifica a Deus, é sua experiência consciente de “exultar em Deus”. O que significa deleitar-se em Deus como o Todo-glorioso. O que é o mesmo que dizer que o objetivo principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. Ou: Deus é glorificado no homem por estar, o homem, satisfeito em Deus.

Warfield diz isso ainda mais claramente nas últimas frases de seu ensaio:

“O principal objetivo do homem é glorificar a Deus e desfrutá-lo para sempre”. Não se pode desfrutar de Deus, certamente, sem glorificá-lo, pois, como é que aquele a quem a glória inerentemente pertence pode ser desfrutado sem ser glorificado? Mas, com toda a certeza, não se pode glorificar a Deus sem desfrutá-lo – pois como pode ser glorificado aquele cuja glória são suas perfeições, se também não for desfrutado?” (400).

De fato! Faça a última pergunta retórica: “Como ele pode. . . ser glorificado se ele também não for desfrutado?” Resposta: Não pode – pelo menos não como deveria. Portanto, transforme essa pergunta retórica em uma afirmação: Deus não pode ser glorificado como deveria, a menos que seja desfrutado como deveria.

John Brown e Thomas Vincent

John Brown, de Haddington, um ministro escocês que morreu em 1787, expandiu o Catecismo de Westminster assim:

  1. Por que a glorificação e o gozo de Deus se juntam como um único objetivo principal?
  2. Porque ninguém pode obter ou buscar corretamente um sem o outro.
  3. Como glorificamos mais a Deus?
  4. Ao recebê-lo e gozá-lo mais plenamente.

O hedonismo cristão parafraseia esta última pergunta e resposta: Deus é altamente glorificado em nós quando o desfrutamos plenamente.

Thomas Vincent, um puritano, ministro inglês que morreu em 1678, fez a mesma pergunta:

Por que a glorificação de Deus e o gozar de Deus se unem como um dos principais fins do homem? R. Porque Deus os uniu inseparavelmente, para que os homens não possam imaginar e procurar um sem o outro. Aqueles que mais desfrutam de Deus em sua casa no mundo, mais o glorificam e desfrutam dele. E quando Deus for plenamente desfrutado pelos santos no céu, ele será altamente glorificado. (As citações de Brown e Vincent foram compiladas por Virginia Huguenot).

Portanto, uma das reivindicações mais essenciais do hedonismo cristão – a saber, “Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele” – não é nova. Está enraizada em múltiplos catecismos históricos, especialmente na famosa pergunta de Westminster: “Qual é o fim supremo e principal do homem?” Com a resposta: “O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.” O hedonismo cristão se une a um longo grupo de pastores e teólogos que reconheceram que essa resposta dupla tem uma profunda unidade, pois a glorificação de Deus no coração humano não pode acontecer completamente, onde Deus não é desfrutado plenamente como o supremo tesouro do coração.

Isso é bíblico?

É claro que, em última análise, não importa que os catecismos humanos tenham afirmado o hedonismo cristão. O que importa em última análise é: Deus criou o mundo dessa maneira e ele nos revelou essa verdade em sua infalível palavra, a Bíblia?

O Desiring God tem trabalhado há vinte e cinco anos para mostrar nas Escrituras que a resposta para essa pergunta é sim. Nós nos importamos mil vezes mais com o que Deus pensa do que com o que os outros dizem. Nós encorajamos você a fazer o mesmo. Se você acha que o hedonismo cristão não é ensinado na Bíblia, não queremos que você acredite porque ensinamos. Esperamos que você fique conosco durante o mês de outubro e teste todas as coisas, à medida que abordamos o hedonismo cristão de diferentes ângulos.

Terminarei este artigo com um texto bíblico que ensina que Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele. E então mencionarei a implicação prática mais abrangente.

Morte como Lucro

Em Filipenses 1.20, Paulo diz que a paixão de sua vida é glorificar a Cristo. Ele coloca assim: “segundo a minha ardente expectativa e esperança…, será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte.”. Então, nas frases a seguir, ele explica como glorificará a Cristo na morte e na vida. Nas duas explicações, ele mostra que está pensando como um hedonista cristão.

Com relação à morte, ele diz que a razão pela qual Cristo será glorificado em sua morte é porque experimentará a morte como lucro (versículo 21). E a razão pela qual ele experimentará a morte é lucro é porque significa “estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor.” (v. 23). O que faço, como um sério leitor da Bíblia, é fazer uma pausa neste momento e perguntar: “Por que experimentar Cristo como lucro na hora da morte glorifica a Cristo?” O que você responderia?

Ele explica “lucro” com as palavras “incomparavelmente melhor”. Ou seja, morrer e estar com Cristo é muito melhor do que tudo o que este mundo tem a oferecer (já que ele está prestes a morrer). Ele vai dizer exatamente isso mais adiante nesta carta: “Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor;” (Fp 3. 8).

Paulo está dizendo que sua avaliação e experiência do valor de Cristo é tão grande que ele tem mais alegria em estar com Cristo do que por qualquer coisa no mundo. É por isso que Cristo é glorificado na experiência de Paulo em relação à morte. Você faz alguém parecer grande e glorioso quando está tão satisfeito com ele e com a presença dele, que perder tudo no mundo, para estar com ele, é sentido por você como lucro.

Portanto, minha paráfrase do modo de pensar de Paulo aqui é que Cristo é mais magnificado em Paulo quando Paulo está tão satisfeito em Cristo que ele desfruta de Cristo mais do que todo o mundo tem a oferecer, mesmo que isso lhe custe a vida. Isso é hedonismo cristão. E isso é exatamente o que Paulo ensinou e viveu.

Vida com alegria

E se Paulo viver? Ele responde a essa pergunta como um hedonista cristão também.

Lembre-se de que ele disse: “segundo a minha ardente expectativa e esperança…  será Cristo engrandecido (glorificado, honrado) no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte.” De fato, mesmo que ele prefira morrer, se seu lucro fosse o único a considerar, ele sabe que vai viver. Deus tem trabalho para ele fazer. Então, como Paulo nos mostra que permanecendo vivo glorificará a Cristo?

Ele considera que permanecer na carne é mais necessário. “Mas, por vossa causa, é mais necessário permanecer na carne. E, convencido disto, estou certo de que ficarei e permanecerei com todos vós, para o vosso progresso e gozo da fé, a fim de que aumente, quanto a mim, o motivo de vos gloriardes em Cristo Jesus, pela minha presença, de novo, convosco. (Fp 1. 24-26).

Acompanhe o pensamento dele: (1) Continuarei vivo e permanecerei entre vós. (2) O objetivo e efeito de minha permanência com vocês será o vosso progresso e gozo da fé. (3) O efeito dessa alegria será o de “vos gloriardes em Cristo Jesus”. Você vê o objetivo para o qual sua vida e ministério estão caminhando? E como o objetivo é alcançado?

O objetivo é “glorificar” ou literalmente “vangloriar-se” (grego kauchēma), em Cristo. A palavra “vanglória” pode ser traduzida como “exultação” ou “louvor” ou “manifestando-se grandioso”. Esse é o objetivo – a glorificação de Cristo (como no versículo 20). E como Paulo pretende que eles atinjam a meta? Ajudando-os a experimentar o “gozo da fé”. Ele poderia ter dito fé, mas ele disse “gozo da fé”. Por quê? Porque o orgulho, a exultação e a glorificação de Cristo acontecem em e através da alegria em Cristo. Isso é hedonismo cristão. O principal objetivo dos filipenses é glorificar a Deus (em seu Filho) desfrutando-o para sempre. Cristo é mais glorificado nos Filipenses quando eles estão mais satisfeitos nele.

Nós somos hedonistas cristãos porque é o que a Bíblia ensina.

Nosso maior dever

Eu disse que terminaria dando a você a implicação mais abrangente e prática do hedonismo cristão. É o seguinte: como Deus é mais glorificado em você quando você está mais satisfeito nele, é seu dever dado por Deus e exigido pela Bíblia, em todo momento da sua vida, esforçar-se para ficar mais satisfeito em Deus como seu supremo tesouro do que você ficaria com qualquer outra coisa no universo.

A Bíblia ressoa esta implicação prática e abrangente do hedonismo cristão. Vou deixar você com apenas uma declaração de Jesus para você pensar.

“Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim;” (Mt 10.37)

Pergunte a si mesmo: que tipo de amor os bons pais têm pelos filhos? E os bons filhos para com os pais? Não é um amor querido? Um amor precioso? Um amor que abraça e anseia? Jesus diz que ele deve ser mais amado, mais querido e mais estimado do que nosso mais querido deleite terrestre.

Nesse caso, a busca de se tornar esse tipo de pessoa é nosso dever. De fato, nosso maior dever (Mt 22. 36-37).

Devocional Original: Voltemos ao Evangelho.

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