Desafio aos pais: transforme sua família em tempo de coronavírus

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Estive lendo recentemente o livro Desafio Aos Pais – Os 14 princípios do evangelho que podem transformar radicalmente sua família de Paul Tripp, como parte de um estudo bíblico que preparei para as mulheres. Nesse artigo citarei os 14 princípios tirados do sumário do livro e a seguir gostaria de expor algumas reflexões sobre esse momento excepcional que temos com nossas crianças durante essa pandemia. Creio que na sua providência, Deus nos presenteou com um tempo precioso com nossos filhos, embora obviamente nenhum de nós deseja que haja uma doença mortal avassalando o mundo.

Embaixadores do Senhor

Paul Tripp começa incentivando os pais a não verem a si mesmos como “donos” de seus filhos, mas como “embaixadores” do Senhor na vida de seus filhos. Eu ousaria modestamente acrescentar o termo “discipuladores” ao lado de embaixadores. Somos todos chamados a “fazer discípulos de todas as nações” começando em casa, com nossos filhos. Com nenhuma outra pessoa no mundo temos a oportunidade, durante 24 horas, 7 dias por semana e aproximadamente até seus 18 anos de vida, para caminharmos juntos e ensiná-los a seguir a Jesus com tudo o que isso que representa. As implicações desta realidade nos leva a dobrar os joelhos. Ninguém pode afirmar ser suficiente para essa tarefa! Mas Deus é gracioso, e é um privilégio que ele tenha confiado crianças aos nossos cuidados por esses anos de formação.

Aqui estão os 14 princípios e suas descrições:

  1. Chamado: não há nada mais importante na sua vida do que ser uma ferramenta de Deus na formação de uma alma humana.
  2. Graça: Deus jamais nos incumbe de uma tarefa sem oferecer o que precisamos para executá-la. Ele nunca nos envia sem nos acompanhar.
  3. Lei: seus filhos precisam da lei de Deus, mas você não pode esperar que a lei produza o que somente a graça pode realizar.
  4. Incapacidade: reconhecer a sua incapacidade é essencial para cumprir bem sua missão.
  5. Identidade: se, como pai ou mãe, você não tem descanso em sua identidade em Cristo, buscará identidade em seus filhos.
  6. Processo: você precisa ter um compromisso de longo prazo com sua missão de criar filhos, pois a mudança é um processo e não um evento único.
  7. Perdido: como pais, vocês não lidam com o mau comportamento apenas, mas com uma condição que produz esse comportamento.
  8. Autoridade: a autoridade é uma das questões cruciais na vida de toda criança. Ensinar e exemplificar a graça protetora da autoridade é um dos fundamentos da missão dos pais.
  9. Insensatez: a insensatez em seus filhos representa um perigo maior do que a tentação que os rodeia. Somente a graça de Deus tem poder para resgatar insensatos.
  10. Caráter: nem todo erro de seus filhos indica uma rebelião direta à autoridade; muitos erros são resultado da falta de caráter.
  11. Deuses falsos: você está formando um adorador, portanto, é importante ter em mente que aquilo que governa o coração de seu filho controlará o seu comportamento.
  12. 12. Controle: o objetivo da missão dos pais não é o controle do comportamento, mas a transformação do coração e da vida.
  13. Descanso: somente o descanso na presença e na graça de Deus fará de você um pai ou uma mãe alegre e paciente.
  14. Misericórdia: nenhum pai ou mãe está mais apto a oferecer misericórdia do que aquele que reconhece dela carecer desesperadamente.

Sabedoria desenvolvida por um avô na fé

Devo acrescentar que Paul Tripp escreveu este livro aos 66 anos de idade! O que nos faz pensar que leva anos para desenvolver sabedoria e perspectiva, e estamos todos nas trincheiras agora. Ao longo do livro ele admite e dá exemplos pessoais onde ele fica aquém de cada área de modo que seu intuito não é fazer-nos sentir culpados ou estabelecer ideais inatingíveis. Eu vejo isso como a sabedoria desenvolvida por um avô na fé que, claramente, não aprendeu sozinho. Somos abençoados por muitos homens e mulheres ao nosso redor, em nossas famílias e na vida de Igreja entre irmãos de Cristo, que nos agregam perspectivas valiosas.

Nosso chamado como pais

Eu proponho abordar o assunto por uma “visão geral” primeiro, antes das percorrer ideias práticas do que fazer no dia-a-dia. Tenho orado para que como mães, ao superar essa primeira fase de “choque” de termos que ficar trancadas em isolamento, funcionando no modo “sobrevivência” possamos chegar, pela graça de Deus, juntamente com nossos maridos, para uma fase de perspectivas renovadas e foco no nosso chamado como pais. Devemos ver isso como uma oportunidade dada por Deus para renovar nossos relacionamentos com nossos filhos. Isso porque temos a tendência de desenvolver maus hábitos e frequentemente sentimos pressionadas, ocupadas e sendo levadas passivamente pela correria do dia a dia ao invés de ser proativas.

As crianças nascem pessoas

Sobre esse aspecto de formação de bons hábitos me inspiro profundamente na filosofia da educação de Charlotte Mason: “a educação é uma atmosfera, uma disciplina, uma vida” e seu princípio nº 1 de que “as crianças nascem pessoas” para se concentrar na importância dos hábitos. Somos todas criaturas de hábitos e, como famílias, temos o privilégio de cultivar uma cultura familiar onde Deus está no centro e no qual estamos cultivando relacionamentos uns com os outros. Nossa sociedade tende a ver a vida de maneira tão individualista que nos leva a focar em nós mesmos e em nossas famílias de maneira egoísta, apenas pensando no sucesso e na felicidade de cada membro da família, mas sem cultivar o sentido da unidade, na qual aprendemos juntos tudo sobre a vida, amor, altos e baixos, em um local seguro.

A mudança é um processo

Se você está achando difícil “administrar” seus filhos durante esse período (e, é claro, todos nós sentimos ansiedade e falta de capacidade de sair ao ar livre, o que exacerba as dificuldades!), talvez você possa discutir com seu marido e orar sobre como abordar cada criança, pensar sobre as maneiras pelas quais ela está lutando para obedecer e trazer em oração cada relacionamento, pedindo a Deus que os ajude a tratar as áreas que precisam de atenção e mudança. Como Tripp observa, a mudança é um processo e não um evento único, mas ao mesmo tempo, nossos filhos precisam respeitar a autoridade. Deus em primeiro lugar e a nós pais como autoridades delegadas por Deus em suas vidas. Isso não significa ser autoritário, mas amoroso e firme. É tão difícil, não imagine que algum pai se sinta capaz de obter tal equilíbrio! Posso imaginar como é difícil lidar com certos maus hábitos e pecados dos quais nossos filhos (e nós mesmos!) quando passamos a maior parte do dia longe de casa, e oro que na oportunidade que nos encontramos atualmente, dentro de nossas casas, ainda que na dificuldade e intensidade da situação, seja possível ver crescimento espiritual nas famílias, à medida que pais e filhos renovam seus relacionamentos e trabalham em direção a relacionamentos pacíficos, respeitosos e que honram a Deus. É um processo, ao longo da vida com certeza, mas esse tempo de “treinamento intensivo” pode ser um tempo pela graça de Deus para começar trabalhar algumas áreas em que talvez deixemos as coisas deslizarem, simplesmente por nossa exaustão. Novamente, isso não vem de alguém que tem tudo resolvido – muito pelo contrário!

A seguir darei algumas dicas práticas de como podemos viver esses dias de confinamento.

Sugestões práticas para o cotidiano em família durante o isolamento

Hábitos simples, como compartilhar refeições juntos três vezes ao dia, é uma oportunidade  preciosa para cultivar conversas, e como pais desenvolver diálogos para mostrar liderança – orando juntos antes da refeição, lendo a Bíblia pela manhã e / ou noite em torno da mesa, talvez, compartilhando pensamentos e ideias, perguntando aos nossos filhos o que eles pensam. Cantar juntos é outro grande hábito, tanto como parte de nosso tempo bíblico de adoração quanto durante todo o dia, por diversão. Meus meninos adoram cantar canções de versos bíblicos, bem como canções engraçadas, canções de crianças, etc.

Ler boa literatura juntos, livros bem escritos que demonstram valores nobres, que nos dão diferentes perspectivas de vida, inculcam simpatia e compreensão, demonstram escolhas sábias e tolas, ajudam a desenvolver um senso de humor e por fim que oferecem conteúdo para diálogos. Adoro o livro “Honey for a Child’s Heart” (“Mel para o coração de uma criança” em tradução livre), sobre o uso imaginativo da literatura infantil no contexto familiar. A autora Gladys Hunt observa que, embora os pais deem aos seus  filhos o “leite” da vida (comida, roupas, abrigo), às vezes eles lutam para lhes dar “mel” ou a doçura da vida que podemos encontrar em boa leitura juntos, compartilhando essas experiências através de literatura bem escrita e enobrecedora e discutindo os pensamentos e ideias dessas histórias. Este é um tópico por si só, e percebo que nem todo mundo tem acesso a muitos livros durante esse período! Talvez os áudiolivros online gratuitos possam ajudá-la?

Tarefas domésticas e habilidades de pais para filhos

Ajudar nas tarefas doméstica e preparar refeições com você é uma excelente oportunidade, eles estão sendo criativos e aprendendo habilidades para a vida. Ensine a eles um de seus próprios hobbies (tricô, costura, música, panificação etc.), se possível. Vejam álbuns de família e fotos antigas juntos, compartilhem os acontecimentos, as lembranças da infância são momentos enriquecedores. Todos nós obtemos parte do nosso senso de identidade em nossas famílias, e as crianças adoram ouvir histórias sobre seu próprio passado e o de outros entes queridos.

Tempo para trabalho e para descanso

Com o conceito de hábitos, descobri que podemos desenvolvemos um ritmo para o dia. Não é um cronograma rígido, mas sim um eixo central com certas tarefas fixas e espaço para flexibilidade. As três refeições principais formam pontos de ancoragem e, é claro, também pode haver hora do chá da tarde e até um lanche no meio da manhã, dependendo da fome de todos vocês. Em casa, temos nosso tempo bíblico após o café da manhã, mas é claro que todas as famílias podem encontrar o tempo que melhor lhes convier. Em termos acadêmicos, estamos apenas no começo, com meu filho mais velho no processo de alfabetização, então fazemos sua lição de leitura todas as manhãs (apenas 10 minutos, 5 dias por semana). Dependendo do que seus professores mandaram para seus filhos, você pode ter um trabalho mais ou menos “acadêmico” para fazer, e eu sugeriria que a manhã é a melhor hora para a concentração de todos. Não se devem estender demasiadamente essas lições. Não é possível e nem sábio reproduzir o tempo da escola dentro do nosso lar. Pois os professores cuidam de mais ou menos 30 crianças juntas. E no ambiente de casa esse tempo possa ser reduzido pela maior produtividade e concentração da criança. Ao mesmo tempo, seus filhos podem ser resistentes ou desmotivados, o que pode ser bastante desafiador. Eu diria que eles não ficarão “atrasados” se você se concentrar primeiro em seu relacionamento com eles, lendo e brincando com eles, fazendo tarefas e ensinando habilidades para a vida, e simplesmente desfrutar do tempo juntos. Você pode plantar alguns feijões durante a noite e depois deixá-los brotar em um pedaço de papel toalha – qualquer coisa com sementes nessa época do ano pode ser o seu estudo da natureza. Cante e dance com eles, leia histórias, jogue jogos (os mais simples, como brincadeiras com crianças pequenas e / ou jogos de cartas e jogos de tabuleiro com crianças mais velhas). Conte-lhes histórias e peça-lhes que contém as suas próprias histórias. Tenha um tempo de inatividade cochilo à tarde, enquanto todos descansam.

Seu estilo de vida particular

É tudo sobre encontrar seu próprio ritmo dentro do seu estilo de vida particular. Se os seus filhos estão acostumados a brincar nas telas, ou assistir desenhos o tempo todo, será necessário quebrar esse hábito e ajudá-los a perceber como eles podem criar seus próprios jogos, pensar com seus próprios pensamentos, desenhar, ler etc. É bom que eles também sintam tédio, porque é nesse momento que a criatividade começa a aparecer.

A educação no devido lugar

Meu apelo é olhar para os nossos filhos de uma perspectiva holística, colocar a “educação” em seu devido lugar- sim, é importante aprender a ler, escrever, fazer matemática, aprender sobre o mundo criado ao nosso redor, aprender sobre aqueles que estiveram diante de nós, ler os pensamentos de grandes escritores etc. No contexto da formação do caráter, o desenvolvimento de uma pessoa que é feita à imagem de Deus e viverá para sempre. Adoro estar com meus filhos, me considero privilegiada por ser casada com um homem piedoso e solidário que também desempenha um papel importante na vida dos nossos filhos. Sei que nem todo mundo tem o pai envolvido na vida de seus filhos e talvez ele também não seja crente. Cada situação familiar é diferente. Acho que estou apenas tentando dizer que não temos que viver de acordo com as regras da corrida de ratos que nos rodeia, a mentalidade de sucesso e conquista “obter boas notas, conseguir um bom emprego, ganhar muito dinheiro”. Sim, queremos que nossos filhos aprendam e cresçam, trabalhem duro, se tornem adultos maduros e responsáveis ​​que ajudam os outros e vivem com integridade, mas eles não precisam ser o número 1 aos olhos do mundo para honrar a Deus. Queremos mais para eles do que o mundo quer; pois o mundo se contenta com pessoas que possuem todos os símbolos de status, mesmo que cheguem lá trapaceando e mesmo que vivam com orgulho e egoísmo.

Fonte: Voltemos ao Evangelho.

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