Coringa e o Salmo 46

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Poucos filmes, raramente, merecem ser considerados e, por mais que se escreva, ainda será preciso uma certa distância para digerir sua mensagem. Coringa é um filme desse tipo. Algo amargo. Não desce bem. Se você espera ação, heróis ou coisa do tipo, esqueça. Você não irá gostar. Coringa é um filme sobre a filosofia da estética. Trata-se de um duro golpe na estética líquida dos nossos dias, por mais estranho que pareça.

Coringa pode ser explorado por diversos ângulos. Talvez, essa seja uma intenção proposital, afinal, vivemos numa época que repudia o senso de verdade absoluta. Contudo, é possível ver uma lâmina que perpassa todo a narrativa do filme dando a ideia de que “o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe.” Trata-se de um prato cheio para quem consegue teorizar sobre a existência humana lançada no construto social afim de explicar como o pior das pessoas pode ser forjado pela injustiça social, pela ciência (psiquiátrica), pelo sistema jurídico e pela mídia que entretém as massas. No meio de toda essa desordem chamada Gotham, emerge, como em uma “microfísica do poder”, um louco, um palhaço sem graça, alguém torturado pela vida, que se transforma em um herói dos oprimidos, um símbolo, ou melhor dizendo, uma metonímia dos nossos dias. Sua principal piada é a seguinte: “espero que a minha morte faça mais sentido que a minha vida.” Você acha isso engraçado? Não está rindo? Para o Coringa essa era a piada mais agridoce da sua existência, mas também era, teimosamente, sua esperança. Esperança sem graça, mas ainda era a sua esperança, ou melhor, sua expressão religiosa. Quanta ironia! Não dá para perder de vista o senso de estética.

A mensagem é a seguinte: A cidade está morrendo. Gotham não é capaz de salvar o Coringa. Não há heróis, não há arte, não há beleza numa cidade dominada pela expressão mais radical do relativismo.

Ora, afinal, por que o Coringa não pode ser uma piada? Se a linguagem é meramente um jogo, por que um palhaço louco, sem graça, jogado na vida, não pode ser um herói dotado de poder para inspirar outros palhaços que resolvem tomar o controle da cidade em busca de libertação daquilo que lhes oprime? Nosso mundo quer transformar a antítese do belo e em arte, mas ainda escuto a reclamação de muitos que foram assistir o filme: Que coisa sem graça! Diziam eles. Não é estranho isso? Pessoas no auge da modernidade, donas de si, cheias de liberdade e saber, não gostam da cidade que elas construíram para si mesmas. Não, não é estranho. A estética é teimosa. É reflexo da imago Dei que não consegue ser arrancado das camadas mais profundas do coração.

Acho que agora vocês entendem por que não é tão difícil entender o “porquê” de o Coringa ser tão perturbador. Trata-se da estética. Estranhamente as pessoas ainda se projetam para um senso de beleza fora da delas. E, é exatamente esse senso de beleza que expõe a contradição da alegria de um palhaço que deveria suspender a dor por um momento, mas, não dá para rir de um palhaço que deixa cair uma arma de sua roupa enquanto tenta distrair crianças com câncer. Não dá para rir dessas coisas, porque existe beleza no mundo. Não se trata de algo abstrato, mas de algo real. A beleza é real. Por mais que a índole pós-moderna tente colocar a beleza no campo da opinião, ela se impõe de forma metafisica, de tal forma que é impossível assistir o Coringa e não perguntar pelo senso de beleza.

O mundo é feio! Gotham é feia! Mas ainda existe outra cidade. Ela virá do alto. Ela não é um construto social, mas uma dádiva. Uma dádiva do amor! A cidade de Deus – como dizia Agostinho. Nessa cidade, nem o louco errara o caminho! Já pensou nisso? Nem o louco errara! A cidade está morrendo porque os homens não podem ter vida em si mesmos. Sem Deus a cidade vive em angústia profunda. Sem a quietude do amor de Deus resta apenas a morte para ser adorada no altar amorfo da modernidade liquida. Isso é terrível, porque já sabemos a infelicidade que aguarda os que buscam alegria última nas coisas daqui debaixo.

Contudo, no meio de todo esse caldo de desespero pode-se proclamar com toda força que existe redenção em Cristo para as pessoas que vivem na cidade. Esse teimoso senso de estética só encontrará a direção correta se olhar para o santuário das moradas do Altíssimo (Salmo 46). Nosso senso de estética clama por poesia, mas não é qualquer poesia, mas a poesia da paz:

O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio. Vinde, contemplai as obras do SENHOR, que assolações efetuou na terra. Ele põe termo à guerra até aos confins do mundo, quebra o arco e despedaça a lança; queima os carros no fogo. Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra. (Salmos 46.7-10)

Podemos ter esperança para além da morte porque o nosso Redentor sofreu o terror da cidade dos homens em nosso lugar. Ele venceu a morte e, por fim, voltará com a cidade adornada com a eterna presença de Deus entre os homens. Nesse dia não haverá mais piada sem graça, porque essas palavras são fiéis e verdadeira (Ap 22.5). Somente no Evangelho de Cristo a existência, estética e esperança podem se reconciliar.

Que o Senhor nos ajude!

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