Complementarismo: um momento de acerto de contas

Avançando: Reafirmando o compromisso com a Suficiência das Escrituras

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Parte 5: Avançando: Reafirmando o compromisso com a Suficiência das Escrituras

Por fim, avançar na conversa sobre complementarismo requer mais duas coisas em relação às Escrituras. Primeiro, devemos reafirmar nosso compromisso com a suficiência das Escrituras para a vida da igreja. Segundo, devemos ter o cuidado de ler as Escrituras corretamente, distinguindo entre os princípios morais das Escrituras e o espaço que ela deixa para a sabedoria.

Precisamos nos lembrar que as Escrituras são suficientes para as nossas estruturas da igreja e ministério

Creio que a Bíblia estabelece dois ofícios: presbíteros/pastores e superintendentes/diáconos. Eu também acredito que o ofício de presbíteros seja limitado a homens qualificados, enquanto homens e mulheres podem servir como diáconos (ou, se preferir, diaconisas, para mulheres).

O que dizer então do presidente de um comitê de missões? Uma equipe de liderança executiva? Um pastor de jovens que não é presbítero? A diretora do ministério de mulheres? Um membro do comitê de pesquisa pastoral? Essas posições saem do balde de presbíteros ou do balde de diáconos?

O problema, é claro, é que muitas igrejas não têm um entendimento bem definido do que é um presbítero ou um diácono. Além disso, a Bíblia não diz nada sobre essas outras posições. Como resultado, as linhas se embaralham. Eles entram e saem das raias de anciãos ou diáconos com pouca clareza sobre o que é o quê.

Além disso, como já observei em outro lugar, usamos a palavra corporativa, e vaga, “liderança” para descrever tudo, permitindo que as igrejas executem uma caminhada “à margem” da Bíblia.

De minha parte, estou disposto a reconhecer que os diáconos possuem algum tipo de “liderança” sobre suas áreas particulares. Um diácono do som, por exemplo, dará orientação e instrução à sua equipe na administração do sistema de som da igreja. Ele ou ela podem receber um orçamento e tomar decisões sobre como usá-lo. Em outras palavras, acredito que podemos fazer uma distinção entre liderança diaconal e o tipo de supervisão de presbíteros sobre toda a congregação que Paulo e os demais dizem pertencer aos presbíteros.

No entanto, se as igrejas usarem linguagem não-bíblica como “equipe de liderança executiva” ou “presidente do comitê de missões”, devem ter mais cuidado ao explicar às suas congregações se essas posições representam liderança de presbíteros ou liderança diaconal. Eles devem trabalhar arduamente para manter todas as posições de liderança dentro de uma dessas duas raias.

Aqui está o ponto mais profundo: pairando por trás de todas essas conversas sobre o complementarismo estão convicções eclesiológicas diferentes – como os artigos de Sam Emadi e Alex Duke deixam claro – e convicções diferentes sobre a suficiência das Escrituras. É fácil ter boas ideias em nossas cabeças e começar a insistir nelas, como se fossem bíblicas. “Precisamos contratar mulheres para resolver o problema dos abusos”. “Devemos ter homens distribuindo as bandejas da comunhão.” Muitas dessas ideias podem ser boas ou até sábias neste ou naquele contexto ministerial. No entanto, tornar obrigatório algo que não consta da Bíblia, coloca mais peso do que se é capaz de carregar. O Espírito Santo não está sentado no céu pensando consigo mesmo: “Gostaria de ter inspirado os apóstolos a dizer isso”! Quando transformamos boas ideias em deveres, essas ideias começam a fazer coisas que nunca pretendíamos que elas fizessem.

Aqui está o que a suficiência das Escrituras significa para a conversa sobre complementarismo: o curso de ação mais seguro para homens e mulheres é nos conformarmos cada vez mais à Palavra de Deus. A sabedoria do homem não garante nossa segurança. A sabedoria de Deus sim. Portanto, se algo está dando errado em nossos lares ou igrejas; se as mulheres estão sendo humilhadas ou negligenciadas, ou se os homens estão abdicando de responsabilidades ou sendo excessivamente severos, o problema não tem sua origem nas Escrituras. O problema está na desobediência ou na ignorância das Escrituras. A solução é abrirmos nossas Bíblias e a examinarmos novamente, estudar mais, pensar mais, aplicar de novo e obedecer.

As escrituras são suficientes para tudo o que nos aflige. Vozes diferentes podem trazer percepções diferentes ao nosso entendimento das Escrituras, mas se algo não está na Bíblia, não é uma “obrigação”. Somente as coisas inspiradas passam a ser “deveres”.

O que devemos fazer é continuar lendo nossas Bíblias e conformando nossos pensamentos e práticas à Palavra de Deus.

Precisamos pensar melhor sobre a relação entre lei e sabedoria

Em outros lugares, argumentei que precisamos reconhecer que as diferenças entre homens e mulheres nos contextos mais diversos da vida não estão enraizadas nos preceitos bíblicos, mas nos padrões do “design” de Deus. E isso é crucial, eu disse, porque o design da criação nos aponta para a categoria bíblica da sabedoria. A sabedoria na Bíblia é uma coisa sobreposta à lei, mas um pouco diferente da lei.

A sabedoria emite um “dever”, como em “os homens devem” ou “as mulheres devem”. Mas o “dever” da sabedoria é um pouco diferente do “dever” da lei. O “dever” da sabedoria soa como algo de Provérbios (“um filho sábio ouve as instruções de seu pai”). O “dever da lei soa como algo do Êxodo (“você não deve roubar”). O “dever” da sabedoria vem com um “normal”. Seu oposto é loucura (o pai pode ser um tolo, um ladrão ou um pai que dá conselhos contraditórios). O “dever” da lei vem com um “sempre”. O seu oposto é o pecado. Sim, o pecado e a loucura geralmente se sobrepõem, mas nem sempre.

O fato de que as diferenças de gênero são governadas pelos “devem” da sabedoria significa que há alguma flexibilidade na expressão de gênero à medida que passamos de um local cultural para outro. A saia de uma mulher em um país pode parecer muito com o kilt de um homem na Escócia. No entanto, essa flexibilidade de expressões culturais não significa – como os cristãos contemporâneos costumam assumir – que podemos, portanto, ignorar vários sinais culturais de masculinidade e feminilidade como “meramente culturais” e moralmente insignificantes para nós.

Paulo, por exemplo, recomenda cabelos compridos para uma mulher (1Co 11.15), uma recomendação que dependia de certos entendimentos em sua cultura. Esperamos, no entanto, que não nos aproximemos de Paulo e o acusemos de tráfico de estereótipos culturais. Se o fizéssemos, ele poderia até concordar até certo ponto. No entanto, ele prosseguiria dizendo: “O cabelo comprido para uma mulher é crucial para expressar a feminilidade onde moro, e a Palavra de Deus ordena que as mulheres sejam como mulheres e os homens como homens. Da mesma forma, você deve prestar atenção aos sinais do local onde vive.

Em outras palavras, se queremos estar “dentro, mas não no” mundo, precisamos prestar atenção às expressões saudáveis de masculinidade e feminilidade em nossas diversas culturas, assim como prestamos atenção às diferenças de linguagem e outras “pistas” sociais.

Em resumo: masculinidade e feminilidade pertencem ao desígnio divino, permitindo certa flexibilidade e necessitando de sabedoria na maneira como vivemos nossa masculinidade e feminilidade. No entanto, isso não é desculpa para ignorarmos as várias expressões culturais de cada lugar, mas prestar muita atenção a elas e esforçando-nos para participar de versões mais saudáveis delas em prol do objetivo bíblico: manter a igualdade e a diferença.

Conclusão

Como uma palavra final, gostaria de reconhecer como sou grato pelo ministério da CBMW (Council on Biblical Manhood and Womanhood). Eles não atingem nota 1.000. Quem atinge! Mas eles demonstram uma coragem que muitos de nós não temos, inclusive eu. Eles procuraram ensinar o que a Bíblia diz sobre um tópico que lhes trará poucos amigos e muitos inimigos em nosso presente momento. Não entendo por que todo complementarista, seja ele amplo ou estreito, não é grato por isso, mesmo quando discordam. Deveríamos honrar nossos irmãos e irmãs em Cristo e aplaudir seus esforços para aprender com a Bíblia. Não apenas isso, devemos imitá-los, trabalhando duro nesse tópico.

Afinal, o caminho à frente provavelmente será pior. Hoje é mais difícil ser complementarista do que há apenas cinco anos, e suponho que ainda será mais difícil daqui a cinco anos. Nossa cultura carece cada vez mais de alguma categorização conceitual para ela. Eu fui a uma escola pública no final dos anos 80 e a uma faculdade não-cristã no começo dos anos 90. Pensando naqueles dias, meus colegas de classe não-cristãos ainda acreditavam que homens e mulheres eram diferentes. As pessoas podiam fazer piadas (algumas apropriadas, muitas não) que dependiam de um senso básico de nossas diferenças. Mas essas intuições estão desaparecendo rapidamente. As ideologias reinantes em nossa época nos fazem recusar deliberadamente ver as diferenças entre homens e mulheres e, simultaneamente, nos tornam incapazes de vê-las.

Talvez as inevitabilidades da natureza se reafirmem nesta geração. No entanto, o pecado é irracional, e não ficarei surpreso se a certeza da androginia da nossa cultura piorar. Se esses for o caso, a ideia de que “esses cristãos detestáveis” continuariam insistindo em distinções de papéis de qualquer forma, sinceramente surpreenderá, assustará e irritará os não-cristãos gentis, respeitáveis e amorosos. Até o mais estreito dos complementaristas se encontrará anatematizado.

O que significa que a tarefa dos complementaristas mais do que nunca – inclusive a CBMW – é continuar reformando a nós mesmos de acordo com a Palavra de Deus. Acima de tudo, novamente, devemos nos conformar à Bíblia. Devemos trabalhar para entender a autoridade e a diferença, bem como a igualdade ensinadas na Bíblia. O entendimento e a prática corretos de cada uma delas será a melhor defesa contra abuso e abdicação. Dessa maneira, “mantendo exemplar o vosso [nosso] procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação.” (1Pe 2.12).

Devocional Original: Voltemos ao Evangelho.

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